Vestir a camisola da Póvoa

Enquanto dormíamos, uma designer norte-americana veio ao nosso guarda-roupa e roubo-nos a camisola poveira. O cão não ladrou, naturalmente drogaram-no. De volta aos Estados Unidos, a senhora Tory Burch espetou com o agasalho típico da Póvoa de Varzim na sua loja online, atribui-lhe um valor superior ao salário mínimo nacional – nosso, não dela – e ainda tem a lata de dizer que se inspirou em trajes mexicanos para copiar a nossa vestimenta.

Felizmente, um espião lusitano deu pelo crime e informou as redes sociais, que não perderam tempo e praticamente cancelaram a madame. Dona Tory, ainda atordoada pelas bordoadas digitais, suplicou por perdão e até fez link para a página da autarquia poveira, que só não crashou por milagre. Os fãs de Tory, habituados a navegar entre peças de loiça contrafeitas e camisolas roubadas, deram por eles a ver a composição do município e até queriam encomendar uns vereadores, mas não encontraram o cesto de compras.

Na minha modesta opinião, a designer copista merecia perdão só por ter escrito correctamente Póvoa de Varzim e não Póvoa do Varzim. Por mim, estava desculpada e até lhe cedia os direitos do capote alentejano, para vender na sua loja como peça original inspirada em trajes siberianos.

Mas terei sido dos poucos com vontade de a perdoar, porque o fogo não cessou. Nem nas redes, nem no Ministério da Cultura, que anunciou entretanto um processo contra a casa Tory Burch. Não sei qual será a jurisdição, mas o ideal era a comarca da Póvoa. A menina Tory passaria num ápice de 88.ª mulher mais poderosa do mundo, segundo a revista Forbes, para andar a vender pulseiras na praia, tentando amealhar pecúlio para uma justa compensação.

E muita sorte tem a senhora por o campo de golfe da Marinha, no Alfeite, ainda não estar pronto. A esta hora, podia já ter uma dezenas de bolas de golfe apontadas à sua testa. “Nice shot, senhor almirante”, ouvia-se, depois de confirmada a informação de que tinha sido atingida a pinha da mulher.

Não é de excluir, também, o envio de dois ou três terroristas lusos, vestidos com os tradicionais coletes encarnados, mas desta feita o encarnado eram explosivos. Não podiam falhar, sob pena de se mandarem pelos ares e a senhora sentir apenas uma súbita inspiração para vender o traje de campino, que jamais seria reconhecido ao Ribatejo, mas talvez a Machu Picchu. (Agora que penso nisso, Machu Picchu tem de ser cancelado, porque não respeita as regra da linguagem inclusiva. É Machu e é Picchu. Tem de mudar para Machu Patarec ou Fêmiu Picchu, caso contrário é terraplenar aquilo.)

Adiante. Havia aqui a oportunidade de aproveitar este ataque à nossa indumentária para a catapultar. Era chamar a bandida, sentá-la numa cadeira – não convinha que fosse de Paços de Ferreira, para não ficarmos também sem o mobiliário – e dizer “minha amiga, como é que é!?”. Mal ela começasse a responder, era interrompida: “Vais colocar lá na tua loja manhosa que isto é da Póvoa de Varzim, vamos esquecer isto e estabelecer aqui umas parcerias, porque se tu gostas dos nossos trapinhos, temos mais.” Devo alertar que, antes de se chegar a acordo e estabelecer formalmente um protocolo, dona Tory tinha de andar vendada pelo país. Com esta gente nunca se sabe.

Mas o entendimento da senhora ministra da Cultura foi outro. Vai para a Justiça, com tudo. Não aceita o pedido de desculpas. Entretanto, a pobre camisola poveira já saltou da colecção. Já não está lá nada, segundo rezam as notícias. Voltou para o nosso baú, agora trancado a sete chaves, que a senhora ministra engoliu, uma por uma. “E agora, Tory? Não estavas à espera disto…”.

Suspeito que, nos últimos tempos, as camisolas poveiras tenham sido todas adquiridas por norte-americanos, franceses, suecos e chineses. Mas fomos a correr vesti-la quando vimos alguém com ela. Podíamos ter aproveitado quem comprovadamente tem meios para promover os nossos trapinhos lindos, sonhando com o dia em que um cargueiro encalha no Canal do Suez só com roupa nossa. Mas não, vamos para a Justiça. Vai ser o Estado português, através de um grande escritório de advogados, contra um estagiário do departamento jurídico da senhora Tory. Mais prejuízo nos causa o Ministério da Cultura que a madame Burch.

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