InícioAgora a SérioAttenborough, os flamingos e eu

Attenborough, os flamingos e eu

David Attenborough completou 100 anos e há uma história que me liga ao maior divulgador da natureza desde que há registos, como se costuma dizer, aliás, no âmbito dos fenómenos naturais. Não é a primeira vez que a conto, talvez nem a segunda. Para alguns leitores, portanto, pode não ser a estrear.

Por muito pouco, mesmo muito pouco, não segui os passos de Attenborough. Durante cerca de 10 minutos, talvez um pouco mais, julguei ter o talento do mestre e cheguei mesmo a sonhar em competir com ele.

Há alguns anos, em Armazéns de Lavos, Figueira da Foz, fui passear pelas salinas. De repente, percebo que não ia contemplar apenas sal, que nem havia muito. Ao longe, muito ao longe, pareceu-me ver flamingos. Sabia que havia, mas não sabia que ia ter a sorte de encontrá-los. E eram alguns. E volumosos. Não eram aqueles flamingos raquíticos.

Estava de carro e isso podia afugentá-los. Parei e segui a pé. Andei um bom bocado. Lá continuavam todos. A minha estratégia de aproximação discreta estava a resultar na perfeição. À medida que me ia aproximando, ia reduzindo a minha velocidade e baixando-me. Escolho um para observar mais de perto.

O espectáculo era lindíssimo. Cada um no seu sítio, numa calma que contagiava. Attenborough alcançou os 100 anos porque foram quase sempre neste ambiente de grande serenidade. Um animal não buzina, por exemplo.

Escolhido o flamingo que vou observar, aproximo-me ao máximo. Não podia ser muito, mais uma vez, para não o afugentar, mas também porque havia o limite do terreno. Ou seja, não me ia enfiar naquele lodo.

Já de cócoras, preparo-me para a observação. A natureza, o ar puro, os flamingos. Agarro-me ao telemóvel, vou fotografar, filmar, tudo. Se contasse a alguém a experiência que estava a ter, ninguém acreditaria. Tinha de recolher prova. Também precisava de mostrar às crianças. Primeira fotografia – ou vídeo, não me recordo – e faço zoom. Que beleza.

Uma beleza, mas havia escolhido um flamingo com problemas de pele, pois tinha umas manchas. Psoríase nos flamingos? Não sei, mas também não interessa. Entretanto, outra mancha. Esta estranha, porque parecia ter sido provocada pelo embate de alguma coisa, mas também não era um arranhão.

Era como se fosse – comecei a pensar – falta de tinta. Falta de tinta… Neste momento, sinto também que o flamingo está demasiado tranquilo, diria mesmo imóvel. Por precaução, mudo a postura, colocando-me numa posição que me permitia, de um momento para o outro, disfarçar e não parecer que estava a observar flamingos decorativos, provavelmente em gesso. Apenas se fosse esse o caso, claro, porque continuei a tentar perceber e ainda havia alguma esperança.

Faltava-lhe bastante tinta, numa análise mais detalhada. Era algo rugoso. Os outros flamingos ao longe continuavam todos na mesma posição, fosse ela qual fosse. Eram definitivamente flamingos decorativos, provavelmente em gesso. Talvez fibra.

Nestas situações, temos de manter a calma. Não estava ali ninguém, mas se alguém tivesse visto a minha figura, já tinha o discurso preparado. “Olá, sou da empresa dos flamingos, estou a ver em que estado estão, alguns já precisam de ser trocados, vou deixar no relatório.”

Voltamos então para o automóvel, já sem qualquer preocupação com a tranquilidade daquele ecossistema, até porque é parcialmente falso. Aliás, para mim passou a ser tudo falso. Será isto sal? Queres ver que é esferovite? Pelo caminho, nem sabia ao certo o que pensar. Só sabia que devia ter ido até ao casino.

Podia tentar falar com o Attenborough para saber se ele, no início da carreira, também tinha passado pelo mesmo. Se também tinha observado, demoradamente, umas espécies de… ornamentos. Mas desisti apenas. Resignei-me. Não é para mim. O meu instinto nestas coisas iria seguramente colocar-me noutras situações embaraçosas. Observar um flamingo insuflável à venda junto à praia, por exemplo.

Anos mais tarde, num jardim em Cascais, percebi que fiz bem, que tomei a decisão certa. Estava deliciado a ouvir os passarinhos a cantar, até que vejo umas pequenas colunas de som no topo daquelas enormes árvores.

Artigos relacionados

Últimas