Terça-feira, Dezembro 6, 2022
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Ver a bola com o Presidente

Talvez a nota mais curiosa do jogo de ontem entre o Benfica e o Porto – com este a sagrar-se campeão – seja a do Presidente da República a ver o jogo num café, em Matosinhos. Manda a empatia que nos coloquemos nos sapatos – ou nas chanatas, porque chegou o calor – daqueles que também escolheram aquele café para assistir à partida.

É que não haverá pior companhia para se ver a bola do que um Presidente da República. E Marcelo Rebelo de Sousa até pode ser um Chefe de Estado “tu cá, tu lá”, mas ainda assim. Mesmo do ponto de visto legal, certas atitudes junto da primeira figura do Estado podem ser consideradas ofensas à República.

Para percebemos este ponto, é importante lembrar que ver futebol implica abdicar, durante 90 minutos mais o tempo de compensação, de todos os princípios e valores adquiridos. É como se durante o jogo se suspendesse a democracia, a Justiça, a razão, os fusos horários, tudo. Um vazio completo. Esquecer tudo o que os pais e os professores ensinaram. Filhos, pais, avós, tudo completamente alterado, representados por heterónimos.

Claro que para alguém suspender os seus valores e princípios é preciso tê-los. Porque sabemos que para muitas pessoas a vida é uma partida de futebol. Mas uma simpática maioria transforma-se na bancada ou em frente à televisão, esteja em casa, no café ou junto à montra da loja de electrodomésticos no centro comercial.

Agora imaginem que vão para o café e na mesa ao lado está o Presidente da República. Isto no jogo que pode ditar o campeão nacional, opondo dois grandes rivais. E imaginem que o jogo segue empatado quase até ao fim, apesar de vivo e com grandes oportunidades para ambos os lados. O que dizer então quando a nossa equipa falha uma oportunidade num jogo destes, com o Chefe de Estado ao lado? “Lamentável”? “Chiça carapuça”? “Na próxima jogada será melhor”? “Se não marcou é porque não tinha de ser”? “Importante é participar”? “Excelentemente executado, mas pena a finalização”? “Demonstração inequívoca de qualidades futebolísticas, cujo desenlace desfavorável não prejudica de forma alguma”?

É que não pode ser usado nenhum dos vocábulos tradicionalmente escolhidos para estas ocasiões. Está ali o Presidente da República, que ainda é pior do que estar ali o Papa, pelo menos este Papa, que certo dia deu uma palmada na mão de uma senhora que viajou da Ásia para o ver, em Roma. E deu-lhe uma palmada como se se tratasse de uma vespa asiática. [Nota: Não deve tentar dar uma palmada numa vespa asiática.] Com um comportamento destes, é provável que Francisco não veja futebol na cadeira de Pedro e que os católicos estejam 90 minutos por semana sem Sumo Pontífice.

Voltando a Marcelo, como é que se comenta a arbitragem ao seu lado? Será que se pode apenas considerar a “hipótese de a progenitora do senhor juiz da partida ter tido que fazer escolhas duras num contexto económico-social porventura muito difícil”? Uma má decisão é “uma decisão errada, a meu ver, passível de recurso para instâncias superiores”? Será o árbitro “invisual”? Um “suspeito de furto”? E para onde podemos mandá-lo? Para o esconso de onde saiu há coisa de 3 décadas e picos? Talvez assim a primeira figura do Estado não perceba e até apoie, cuidando de que estamos a oferecer ao árbitro uns dias tranquilos na sua terra natal. Imagino o Presidente emocionado ao ver o povo preocupado com a pressão a que está a ser sujeita a equipa de arbitragem, sugerindo umas férias no interior.

Neste jogo em particular, há um fora de jogo que está a dar muito que falar graças aos seus 2 centímetros de irregularidade. Analisar esta decisão com o Comandante Supremo das Forças Armadas ao lado também não é fácil. É preciso substituir todo o calão desportivo por comentários razoáveis. “Já viu a maravilha da tecnologia, senhor Presidente? É hoje possível detectar-se um fora de jogo de 2 centímetros entre dois corpos em marcha, graças a uma lente colocada a dezenas de metros de distância. Tecnologia portuguesa, senhor presidente…”, ao que Marcelo podia responder “já devia ser com uma selfie, porque ainda é mais perto”.

No fim do jogo, independentemente do resultado e da equipa que se apoia, resta naquelas circunstâncias a celebração do desporto e a qualidade e desportivismo com que ambas as equipas se apresentaram em campo. Depois o Presidente sai primeiro, porque ainda tem coisas na agenda, e o povo no café rebenta como um petardo, de tanta pressão acumulada.

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