Quarta-feira, Fevereiro 21, 2024
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Tutti Putti

Em muitos casos, não há maior serviço que podem prestar à sua cidade e ao seu país do que meterem ao bolso e ficarem quietos.

A nossa tranquilidade voltou a ser abalada por mais um escândalo, desta feita envolvendo autarcas lisboetas que combinavam coisas e distribuíam dinheiro entre eles. O povo, claro, queixa-se sempre de tudo. Se é porque estão sempre à bulha, na política, é porque estão sempre à bulha. Se se dão bem e até combinam as coisas, é porque até se dão bem e combinam coisas.

Quanto ao dinheiro, a distribuição de riqueza é sempre meritória. Até se pode dizer que começaram por eles, mas é como nos aviões. Em caso de despressurização da cabine, devemos sempre colocar a máscara primeiro em nós, só depois ajudamos os outros. A razão é simples, se calha desmaiarmos, já não conseguimos dar uma mãozinha e então desmaia tudo. É o que fazem muitas vezes os políticos, distribuem a riqueza por eles, só para que não desmaiem e possam distribuir por outros. Às vezes já não há verba, quando chega esse momento, mas isso a culpa é do povo, que não dá o litro. Bebe o litro.

Tomado por uma raiva que não tem explicação, o povo, por definição ingrato, tem muita dificuldade em ver o lado positivo das histórias. Nesta operação Tutti Frutti, há boas notícias. Por exemplo, muitos recebiam alegadamente dinheiro mas não trabalhavam. Menos mal, porque podiam receber o dinheiro e trabalhar, aumentando consideravelmente o prejuízo para a sociedade. Imaginem-nos a mexer nas coisas, a ter ideias e a eventualmente levá-las a cabo. Quanto nos poderia custar tal coisa? Era o salário mais os estragos.

Em muitos casos, não há maior serviço que podem prestar à sua cidade e ao seu país do que meterem ao bolso e ficarem quietos. Pode parecer pouco ético, mas é patriotismo do mais puro. Se calhar até queriam fazer umas coisas, mas pensaram primeiro no país e limitaram-se a empochar. Altruísmo. Defendo há muito tempo uma nova condecoração da República, porque sempre se agraciou pessoas pelo que fizeram, mas nunca se reconheceu ninguém pelo que não fez pelo país e graças a Deus.

Mais. Nesta história, ainda não vi ninguém mencionar o privilégio de termos um presidente de Junta, em Lisboa, descendente do pai da Física moderna. Luís Newton podia perfeitamente viver à sombra do sucesso do seu trisavô, Isaac Newton, mas empresta-nos os seus genes espertíssimos, com muita humildade, numa simples Junta de Freguesia. Por exemplo, a família Newton é conhecida pelo contributo que deu para a percepção da gravidade, no caso de Isaac com a teoria da gravidade, no caso de Luís com a gravidade da situação. Tudo isto, repito, é dado à sociedade sem pedir nada em troca. Pronto, pede votos, mas os Newton não são tão génios quanto os Costa, que conseguiram governar sem ter os votos depois de anunciarem ao mundo a fusão do Bloco e do PCP.

Enfim, reza a lenda que, para escrever a lei da gravidade, Isaac Newton apanhou com uma maçã. Na Estrela, reza a lenda que o Luís apanhou com uma macieira inteira, acordando dias depois aparentemente bem, mas só respondia ao amigo Sérgio Azevedo, que se terá aproveitado do bisneto da Física moderna. Aproveitou-se, é certo, mas em prol de um grande desígnio: mandar nisto tudo. O quê? Agora a ambição também é um defeito? Depois admirem-se que cada vez menos génios queiram ir para a política.

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