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Tudo estratégico

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Felizmente, é sempre tudo estratégico. Não há obra ou projecto que se apresente que não seja estratégico e que não vá mudar tudo para melhor, inclusivamente a meteorologia. 

De facto, contam-se pelos dedos de uma mão e sobram cinco dedos as vezes em que se ouviu um governante garantir que se lançava em determinado projecto apenas para estoirar dinheiro ou para dar cabo de alguma coisa. Não, é sempre tudo estratégico. 

Estádios, estradas, eventos, aeroportos, competições, é sempre tudo muito estratégico e fundamental e gerador de coisas maravilhosas com as quais o povo nem nunca sequer sonhou. Como nas televendas, até pode parecer caro, mas faz uma série de coisas e é incrível. 

O problema é que, em bom rigor, não há mesmo nada que não seja estratégico. O simples pum de uma vaca é estratégico. É absolutamente estratégico, na medida em que vai libertar o animal de uma quantidade de ar no abdómen, que lhe permitirá, entre outras coisas, ingerir mais ervas. Depois há os contras – a poluição, por exemplo – mas o pum é estratégico e pode mudar a vida da vaca, nem que seja porque se dela não saísse, a podia liquidar. Estratégico. 

Ora, parece então que não importa saber apenas se é estratégico, porque é tudo, mas sim se compensa. Pôr em marcha um programa espacial português, com o envio do primeiro astronauta lusitano à Lua – seria naturalmente o presidente Marcelo – é estratégico. Mas compensa? Temos margem para o investimento? Temos os meios? Temos o conhecimento? Porventura não.

Mas não deixa de ser estratégico, um eventual programa espacial português, com o envio de foguetões do Cabo da Roca para o espaço. Do Cabo da Roca talvez seja má ideia, porque faz muito vento. Mas mesmo assim continuaria a ser estratégico para o país e para Sintra. Só não seria estratégico para o foguetão, que havia de ser recuperado em pedaços da praia do Abano. 

Vem isto a propósito da Liga dos Campeões em Lisboa, que o autarca – entre outros – considerou estratégico. Lá está, tem razão. Não se pode dizer o contrário. Agora, suponhamos que, perante a pandemia que se atravessa, fica ainda mais caro do que é costume, nem que seja porque o Estado tem de se preparar para receber a multidão. Suponhamos que, no plano internacional, é um pouco irrelevante a localização do evento. E suponhamos – mais grave do que tudo – que a realização de tal espectáculo, nesta altura, faz aumentar os casos de Covid-19, com todos os custos que já se percebeu que tal maleita comporta.

Mesmo perante tudo isto, não é que continuava a ser estratégico? E a não realização de um evento estratégico, como se caracteriza? Também é estratégico. Chamemos-lhes a beleza do estratégico.

A conclusão. Não basta dizer-se que é estratégico. É preciso saber-se qual é a estratégia. E aí é que eles se perdem, porque na maioria das situações a estratégia é ser estratégico. Ou seja, é tudo. O oposto de qualquer estratégia, tem graça.