Ronaldo a açambarcar recordes

Portugal esteve ontem a perder com a Irlanda, o que, diga-se em abono da verdade, nem seria um mau resultado. Empatar é que já enjoa. Ganhar ou perder será sempre motivo de celebração em Portugal, o que aumenta drasticamente as hipóteses de os portugueses saírem satisfeitos de um encontro. Ontem, quando empatámos, ouvi os comentadores, entusiasmados, lembrarem que ainda havia alguns minutos para ganharmos. “Ou perdermos”, pensei eu, entusiasmado, porque empatado é que aquilo não podia ficar. 

Não é, no entanto, o jogo que me traz aqui. É o recorde de Cristiano Ronaldo, batido durante a partida. Não foi o único recorde deste encontro, porque a selecção nacional também é a única no mundo a ser comandada por uma vaca descomunal. Só é Fernando Santos a apresentar-se nas conferências de imprensa porque não pode ir a vaca. É desagradável com os jornalistas. Responde a tudo com “muuuuuuu”.

Vamos então ao recorde de Ronaldo, que consiste em ser o melhor marcador por selecções da história do futebol. O recorde foi batido aos 110 golos, mas Ronaldo ainda teve a pouca hospitalidade de aviar mais um aos irlandeses, só para Ali Daei não ter ideias de se levantar do sofá e voltar a empatar a disputa num jogo arranjado à pressa porque com iranianos nunca se sabe. Ali Daei era então, até ontem, o recordista de golos pela sua selecção, com 109. Hoje foi ao café e já pagou a bica. 

Quando Ronaldo bate recordes – algo que ocorre pelo menos duas vezes por dia – fala-se sempre muito na importância para Portugal e para os portugueses. A ideia é de que tais conquistas também são nossas. Posso garantir que ontem, à hora do encontro entre Portugal e a República da Irlanda, eu encontrava-me em casa e não marquei qualquer golo à selecção daquele país, tendo testemunhas. Admito alguma dificuldade em arranjar álibis para todos os outros 109 golos de Ronaldo pela selecção portuguesa, mas deixo aqui a minha palavra de honra de que também não marquei nenhum deles. 

Daí que o recorde é de Ronaldo e não meu, nem nosso, mesmo enquanto povo. Por outro lado, Portugal hoje acordou na mesma. Não se notou assim nenhuma diferença evidente entre ontem – que não havia recorde de Ronaldo – para hoje. E repare-se que o Irão também não caiu a pique depois de perder a marca histórica, assim como não descolou quando a conquistou. Com certeza, porém, que quando Ali Daei bateu o recorde com 109 golos, alguém disse que era muito importante para o Irão.

Aqui chegados, poderá existir quem se lembre de fazer a comparação com os Jogos Olímpicos. A diferença é que, nesse caso, a competição é mesmo, por exemplo, ver quem salta mais. Neste caso, não. Ronaldo conquistou uma marca pessoal dentro de outra competição. Era como se Pichardo, para além do salto que deu, me tivesse levado às cavalitas. O salto dele era a medalha para Portugal, o recorde de o ter feito com um indivíduo às costas era dele, assim como era meu o de maior salto às costas de um indivíduo.

Regressando ao tema. O recorde é de Ronaldo, ele é que é a máquina, e teria feito o mesmo se fosse suíço, apesar de que nesse caso talvez os recordes fossem em retornos de fundos. Quanto aos adeptos, fica bem agradecer-nos, mas temos de aceitar que se Ronaldo tivesse nascido nas Canárias, também ia encontrar pessoas para puxar por ele.

Nós não temos um recorde, portanto. Nem este nem os outros. São de Ronaldo. O que nós temos é a tal vaca por este recordista ser português. E a vaca, pelo andar da carruagem, vai precisar que Ronaldo jogue até ao recorde de 140. Anos, não é golos. Golos já irá nos 19.879, mas anularam 549. Dizem que foi com a bengala. 

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