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Opinião-ão | A minha primeira crónica

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Na minha primeira crónica, gostava de esclarecer que já fui várias vezes convidada para escrever em jornais mas nunca aceitei. Quando surgiu o convite do Imprensa Falsa, o meu rabo começou a abanar de tal forma que eu penso que se o ligasse a alguma coisa era capaz de produzir energia. Chegou a ser desconfortável. Nunca o tinha visto abanar assim. Percebi que tinha de aceitar o convite.

E assim encontrava também o tema para a minha primeira crónica, que é o rabo delator, uma condição que afecta 10 em cada 10 cães. A imprensa raramente aborda este assunto porque não é conveniente, ninguém quer incomodar os lóbis que beneficiam deste sistema, desde logo, o lóbi dos donos. 

A verdade é que as pessoas não imaginam o que é viver com um rabo que nos denuncia, que não nos permite esconder qualquer emoção. A primeira vez que senti esta violação da minha intimidade foi quando era ainda jovem e tinha um fraquinho por um pastor alemão meu vizinho. Era o Chanceler, muito elegante, embora corpulento, uma pose austera mas ao mesmo tempo delicada.  

Um dia o Chanceler vem perguntar-me se quero ir mandar uma poia num jardim próximo e eu queria muito ir, era tudo o que eu mais queria, mas não queria demonstrar. Queria fazer-me um pouco difícil e preparava-me para dizer que não me apetecia. É aquele jogo típico. 

Acontece que o meu rabo não era da mesma opinião e começou a abanar de tal forma que o Chanceler até disfarçou. Começa a coçar-se, a coçar-se, a coçar-se. Eu a tentar que o meu rabo parasse, ele continuava a coçar-se sem comichão alguma. “Ok, vamos, mas tenho de voltar cedo”, lá acabei por responder. Felizmente o rabo não fala, pois havia de ter dito “não tem nada que voltar cedo”. 

Percebi, naquele momento, que jamais poderia esconder o que quer que fosse. Em conversa com algumas pessoas, lá me foram dizendo que elas também ruborizam em certas situações. Eu compreendo, mas eu preferia corar a ficar com o rabo a abanar. Por todas as razões e mais alguma. Se corar posso sempre dizer que é o calor ou o vinho. E corar não grita “sim, sim, quero muito, quero muito”. Pode ser apenas um afrontamento.

Tudo isto para não falar de quando, para além do abanar do rabo, começamos às voltas sobre nós mesmos. Também me aconteceu com o Chanceler, mas numa situação mais delicada. Já andávamos há umas semanas, estava tudo muito bem, quando aparece no jardim um cão de água português nosso amigo a perguntar se eu queria ir nadar com ele.

O Chanceler começa a rosnar e eu a tentar controlar-me, até que me começa o rabo a abanar e eu ainda vou assim “é do nervoso da situação, Chanceler, tem calma”, mas de repente começo às voltas sobre mim mesma. Nunca mais vi o Chanceler. Nem eu nem os donos.

Não se julgue, porém, que o rabo só nos coloca em situações delicadas quando abana. Certo dia, numa situação de tensão lá no bairro, éramos três contra cinco, eles vinham para assaltar, estamos todos em posição, ninguém podia mostrar medo ou receio, quando o meu rabo começa a meter-se para dentro, por entre as pernas, mas a meter-se a tal ponto para dentro que me começa a aparecer pela frente. Fiquei sem a coleira, claro.