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Marcelo e o passeio nas avenidas

Vamos fazer um breve resumo deste dia de eleições presidenciais, numa altura em que temos ainda tudo tão presente. Parece que foi ontem. No meu caso, levantei-me às 07:30 da manhã, pois queria estar a votar às 8. A razão é simples: Não sei se ouviram falar numa pandemia… exacto, então a minha ideia era ir o mais cedo possível para não fazer de carro-vassoura.

Chego então à escola, vou aos dizeres, vejo qual é o meu pavilhão e meto-me na fila. Estive lá dois ou três minutos, até que uma senhora – na verdade, uma santa – pergunta “é aqui o C, não é?”. Preparava-me para lhe responder que não, ali era o A, quando outro cavalheiro na fila se antecipa e confirma que é o C. Fui então perguntar ao voluntário e cheguei à conclusão de que estava no sítio errado.

Já bem orientado, lá chego ao pavilhão A e à minha mesa, que estava atrasada porque faltava um membro. Chega entretanto o presidente – esteve a tentar resolver o assunto – e começam os trabalhos, mas o senhor avisa que tinham de começar pelos votos antecipados. Já estávamos nas 8 e 20, mais coisa menos coisa. Eu era o primeiro. Ia inaugurar aquilo. Ora, com a demora, nas minhas costas inicia-se uma mini revolução, que acabou com o presidente da Mesa a exibir a lei ao povo – parecia que estávamos na Idade Média. O povo urrava e o homem bramia “é a lei!”, com a própria lei aberta, voltada para o povo. Ainda pensei “saco aqui da espada e tomamos conta da mesa”, coisa que poderia ter resultado se tivesse comigo uma espada. Tive de abandonar a ideia por falta de material.

Felizmente, o senhor recuou na teimosia e aceitou introduzir os votos antecipados mais tarde. Teria saído de lá na horizontal directamente para as exéquias se tivesse insistido naquela coisa disparatada da lei. O pobre homem não tinha jeito nenhum para aquilo. Deu-me tanta pena que não disse, durante a revolução, qualquer palavra.

Ao longo do dia, os relatos que nos iam chegando eram ora de pessoas que tinham demorado 3 minutos a votar, ora daquelas que estiveram em filas enormes. Mas, no geral, as coisas pareciam estar a correr bem. O que é pena, porque ficamos sem nada para criticar. Só talvez que o papel era muito grosso e imprimiram a cores. A jovem Greta, se votasse cá, dava meia volta. Como deram, aliás, muitos eleitores ao perceberem que os candidatos apareciam sem máscara. Estive para verter o álcool-gel para cima do boletim, pegar por uma ponta e ir a pingar até à urna.

Entretanto, a meio da tarde, há notícia de que a afluência às urnas está muito razoável. Razoável para a nossa média, que é muito baixa. Somos tão poucos a votar que isto podia perfeitamente resolver-se com uma votação por braço no ar. “Quem vota no Marcelo? Podem baixar. Quem vota no Eduardo Baptista? Podem baixar.”

De uma maneira ou de outra, lá chegam as 20 horas e começam as projecções. RTP e TVI encomendaram estudos, a SIC pergunta apenas a Marques Mendes. Marcelo ganha com um número expressivo de selfies. Perdão, de votos. Foi implacável. Nem fez campanha. Ana Gomes desafiou-o para uma segunda volta, mas só se for na roda gigante de Cascais.

Entretanto, Marcelo chega a casa, depois de votar em Celorico. Com o país todo fechado em casa, Marcelo votou em Celorico, acompanhou os resultados em Cascais e discursou em Lisboa. Parece a gozar. Não ter ido comer uma tosta a Faro e tomar o café a Viana do Castelo foi uma sorte. Se não houvesse recolher obrigatório, se calhar Marcelo tinha feito tudo em Cascais. Mas como não se pode, abram alas ao Noddy.

À porta de casa do Presidente já estavam os jornalistas, que, com todo o respeito, naquela situação parecem arrumadores. Marcelo começa a aparecer na rua e eles vão a correr, só lhes falta assobiar e levantar um jornal enrolado. Eu, no lugar deles, perante aquela situação, a primeira pergunta que fazia era se tinha uma moeda. Se não tivesse, vociferava dois palavrões e ia-me embora. Se arranjasse qualquer coisa, então lá passava para as perguntas sobre as eleições.

Adiante. Marcelo vai ao take-away buscar o seu jantar. Não sabe cozinhar? Sabe, porque sabe tudo. Mas vai ao restaurante buscar porque não se deve sair. Lá está, é sempre o mesmo princípio. Posso sair? Não. Mas posso sair? Posso. Então saio. Porquê? Porque não devo. Foi então a um restaurante em Cascais, ao lado de casa, o que me surpreendeu. Quando ouvi que tinha ido buscar jantar, imaginei que tivesse ido apanhar uma sopa de cação a Ferreira do Zêzere.

Pausa agora para falarmos dos outros candidatos. Já voltamos a Marcelo. Não sendo candidato nem apresentando candidato, o líder do CDS foi dos primeiros a cantar vitória, tudo porque o seu partido apoiou o actual presidente. Se o CDS não tivesse apoiado Marcelo, creio que ele nem se teria candidatado, assumindo logo o seu posto de nadador salvador na praia do Peixe. É, portanto, de elementar justiça o CDS falar em vitória. Há pouco falei para o Largo do Caldas e o líder já tinha tomado os comprimidos. Ainda dizia que também tinha sido ele a dar a vitória a Joe Biden, mas as pastilhas não fazem logo efeito.

Vitorino Silva, com aquele estofo presidencial, também estava numa casa, mais concretamente na garagem do primo. Fez uma coisa muito inteligente, que foi circunscrever esta votação nacional apenas à freguesia de Rans, onde ficou em segundo lugar. Explica e bem que perdeu porque estava a concorrer contra o Presidente da República. Isto foi dito às televisões, claro que depois deve ter ido com o primo bater a umas portas. Esta noite eu não queria morar em Rans. Seja como for, não deixa de ser caricato ter recolhido 7500 assinaturas para disputar 893 votos.

Marisa Matias também atalhou caminho e nem esperou por grandes contagens. Também lhe chegaram os resultados em Rans, adeusinho até à próxima. Estava claramente com imensa vontade. É que se calha ser eleita, passava a receber metade do ordenado e a ter de ouvir partidos. Aposto que votou em Ana Gomes.

Eduardo Baptista, aquele senhor que encabeçava o boletim, não apareceu nesta noite eleitoral, mas eu, no lugar dele, tinha aparecido num hotel, com os meus seis apoiantes. Depois não falava, como no boletim. Ficava ali quieto, a olhar para os jornalistas.

Entretanto aparece Tiago Mayan, que se apresenta feliz e com um discurso inspirador. Parecia coach. Nunca devemos desistir dos nossos sonhos, diz ele. Fiquei à espera que sacasse de um livro de auto-ajuda para promover. Podia ser Os Mayans. O primeiro exemplar devia oferecê-lo ao seu colega João Ferreira, bastante cabisbaixo. Quando regressar a Bruxelas, dirá ao piloto para não sobrevoar o Alentejo, ou, em sendo absolutamente necessário, então que largue combustível.

Regressemos então a Marcelo, que continuava em sua casa, em Cascais. Bom, aparentemente está em casa, mas não me admirava que já tivesse construído um túnel, permitindo-lhe dizer que está em casa, mas não está. Quando a RTP liga a Cascais, só se vê uma porta. Marcelo podia estar perfeitamente na Figueira da Foz. Foi pelo túnel. A propósito deste directo da RTP, há um momento que marca a noite, que é quando José Rodrigues dos Santos, que cobriu a guerra do Golfo, se vê na obrigação de cobrir uma porta, em Cascais.

Poucos minutos depois, Marcelo lá dá início à sua viagem até Lisboa, mais concretamente até à Faculdade de Direito, onde vai discursar. A viagem é acompanha por jornalistas montados em motas. Devia ser entre Cascais e Lisboa, mas foi entre Cascais e Lisboa, faculdade, Alvalade, Praça de Espanha, faculdade outra vez, hospital de Santa Maria, Alvalade, Aveiras de Cima, Santarém, Fátima, faculdade outra vez, Alvalade, Campo Grande, Prior Velho. Parecia que o GPS de Marcelo estava a ser controlado por Vitorino Silva, que insistiu, no seu discurso, que o Presidente devia ir a Rans. Foi por pouco que não passou lá. Os portugueses que enjoam a andar de carro tiveram de mudar para a CNN, que, com muita ingratidão, ignorou as eleições em Portugal.

Na verdade, as voltas de Marcelo deviam-se ao facto de Ana Gomes e André Ventura ainda não terem falado. O Presidente-eleito tinha de ser o último. Foram voltas e mais voltas. Para poupar combustível podia perfeitamente ter enfiado o carro num buraco – há muitos, podia escolher – depois tinha de mudar o pneu. Dava tempo.

Quando Ana Gomes termina o seu discurso, Marcelo já andava às voltas na Plaza Mayor, em Madrid. Ainda faltava André Ventura, que conseguiu meter uma música épica entre cada frase. Parecia aquelas barracas que há nas feiras – bastante irónico – em que se acertarmos nas latas ganhamos um urso de pelúcia. Aí o animador também fala, mete a música, fala, mete a música.

Quando chega a vez de Marcelo, onde é que já vai a Faculdade de Direito de Lisboa!? O discurso de vitória acabaria por ser feito na Sorbonne, em Paris. Mais do que falar aos portugueses, Marcelo precisava de esticar um bocado as pernas e de ir a uma casa de banho. Foram muitos quilómetros. Mas valeu a pena esperar, porque a noite eleitoral havia de terminar com um bom discurso do presidente reeleito. Um discurso que devemos agradecer ao CDS por ter tornado possível.

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