Hakuna Orçamentata

Admito que não vou ler o Orçamento, mas só porque não aprecio dramas. Eu é mais comédias românticas e a nossa contabilidade nacional, se der para rir, só se for do nervoso. Ainda assim, tenho sido apanhado – desprevenido, claro – por algumas notícias sobre o tema, tendo chegado à conclusão de que nem drama nem comédia, isto é bom é para quem aprecia filmes da Disney. 

Acompanhem o meu raciocínio. Certo dia, exibiram à selva um Leão que havia de ser o ministro das Finanças. Às duas por três, o bicho andava à luta com as hienas para viabilizar o Orçamento. Quem é que já viu este filme?

Fazem-se sempre todos muito difíceis, é sempre muito grande o suspense, mas já se está mesmo a ver como é que acaba a história. Tal como nos filmes, quando o herói leva um balázio nos instantes finais mas todos sabemos que acertou na carteira e que ele voltará a levantar-se antes dos créditos. “Não pode morrer”, é a frase mais dita entre quem assiste a filmes, logo a seguir a “põe aí no pause”. 

Quando o filme é o orçamento, aquilo que mais se ouve, nos instantes finais, é “não pode chumbar”. As negociações vão correndo, à última hora alguém recua – o documento está em perigo! – as pessoas em casa, incrédulas com toda a situação, gritam “não pode chumbar!”, e não é que lá se alcançou um acordo!? Ainda por cima graças a todos, ninguém cedeu, que é outra coisa que também só se consegue no cinema.

A verdade é que, para quem se lembra de António Guterres a safar orçamentos com uma tábua de queijos, tudo isto são bonecos. António Guterres, que naquele tempo ainda era uma pessoa cruel – depois conheceu Angelina Jolie -, sacou um orçamento e um deputado à oposição de uma ‘queijadada’ só.

Estes, hoje, fazem imensas contas, têm linhas vermelhas, exigências, tudo e mais alguma coisa. Guterres – zás! – um queijo em cima da mesa. O deputado do CDS, apesar do receio de Portas lhe aviar um sopapo – Portas, naquele tempo, ainda era uma pessoa cruel, depois deram-lhe dois submarinos e ele afeiçoou-se aos bichos – só conseguiu dizer, trémulo, “onde é que eu assino, senhor engenheiro?”. 

Claro que todo este episódio viria a dar alguma consistência à suspeita popular de que havia ratos no Parlamento. Bastou colocar-se uma armadilha com queijo. Só não se voltou a experimentar a estratégia por causa dos Direitos Humanos e outros entraves ao desenvolvimento. 

Dirão os mais atentos que Guterres, apesar destas proezas, viu-se num pântano. É verdade, mas a sua arte de aprovar orçamentos na charcutaria não seria responsável por tal pântano, tanto assim é que, anos depois, voltaria a ser capa da revista Time com água pelos joelhos. Só por maldade alguém pode dizer que Guterres atrai inundações, mas que las hay, las hay. 

Enfim, não sei se o nosso ministro Leão tentou convencer os seus parceiros com acepipes, mas suspeito que não há motivos para preocupação: Hakuna Matata!  

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