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Entre o tédio e a solidão: Entrevista com um posto de abastecimento de veículos eléctricos

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Instalados pelo menos uma década antes do futuro, os postos de abastecimento de veículos eléctricos estão hoje espalhados pelo país, sós e abandonados, sem carregar nada. A maior parte já se habituou a ver parar à sua frente automóveis com motores obsoletos, a gasolina e a gasóleo. Mas o que pensam estes postos do futuro? Não são os postos que são do futuro. O que pensam estes postos, do futuro? Fomos falar com um.

[Imprensa Falsa] Há quanto tempo está aí?

[Posto de abastecimento de veículos eléctricos] Parece que vai fazer agora seis anos.

[IF] Quantos carros já abasteceu?

[PAVE] Carros? Ora, deixa cá ver… Nenhum, mas uma vez safei um turista que estava sem bateria no telemóvel e fez para aí uma puxada.

[IF] Deve ser um bocado monótono estar aí há tanto tempo sem abastecer um único carro.

[PAVE] [shiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii]

[IF] Que barulho é este?

[PAVE] É um cachorro a fazer-me xixi aqui atrás, é melhor afastarem-se, sobretudo o senhor das fotografias, que eu sei que o vosso equipamento é caro. Só mais um momento. […] Já está. Qual foi a sua pergunta?

[IF] Deve ser um bocado monótono estar aí há tanto tempo sem abastecer um único carro.

[PAVE] Já me habituei. Ao início era mais chato. Sobretudo a ansiedade. Aproximavam-se os carros para estacionar e eu pensava “é agora, Simplício, vamos lá carregar uma viatura”, mas depois começava a ouvir aquele ruído dos motores e percebia que não era eléctrico. Depois estacionavam sempre à minha frente e eu ao início ainda lhes dizia “ó amigo, e se vier uma viatura eléctrica?”, mas eles riam-se.

[IF] Sempre quis ser um posto de abastecimento de veículos eléctricos?

[PAVE] Não. Eu queria ser um posto de abastecimento de GPL, porque sempre gostei mais de dar gás, mas o meu pai, que trabalhava numa bomba, dizia que só lá passavam dois ou três carros por dia para meter GPL e pelo menos metade eram pessoas que se enganavam e que só queriam pôr ar nos pneus. Por outro lado, um doutor disse-lhe uma vez que os automóveis eléctricos eram o futuro. Mas a gente desconfiou, porque esse tal doutor pediu 50€ ao meu pai de entrada para um automóvel eléctrico que depois só era preciso dar mais 50€, mas nunca mais apareceu.

[IF] Na sua opinião, o que é que falhou?

[PAVE] Foi o meu pai ser estúpido.

[IF] Não, o que é que falhou neste sistema de abastecimento de automóveis eléctricos.

[PAVE] Desde logo, não é grande marketing dizer às pessoas que têm de estar aqui onze horas a carregar só para terem autonomia para chegar ao carregador mais próximo, que é este já aqui ao meu lado. Vítor! VÍTOR! Cumprimenta os senhores, que são do Imprensa Falsa.

[Vítor] Boa tarde, boa tarde. Ah, do Imprensa Falsa. Gosto muito do vosso pasquim. Ainda é o que me distrai.

[IF] E expectativas para o futuro?

[PAVE] Bom, eu creio que vou ser arrancado.

[IF] Arrancado?

[PAVE] Sim, qualquer dia chegam aí com uma carrinha e levam-nos para o armazém, porque nós todos reciclados ainda damos para fazer muitos parquímetros.

[IF] Não acredita no futuro do veículo eléctrico?

[PAVE] Acredito, pois. Acredito. Por acaso, acredito. Acredito, sim. Mas se não tivermos de andar a ligá-los à tomada no meio da rua, ajuda.

[IF] Tem automóvel?

[PAVE] Tenho sim, um Seat a gasóleo.

[IF] Então, se tivesse um carro eléctrico, já tinha pelo menos um autómovel para carregar.

[PAVE] Não pode ser. Suponhamos que aparecia alguém…

[Vítor] LOL

[PAVE] O Vítor está-se a rir porque pára o Citröen dele todos os dia à frente, mas eu não acho correcto.

[Vítor] Se eu não pusesse o meu, o gajo da padaria punha aqui a carrinha. E assim não pago parquímetro.

[IF] Mas parece que a empresa que vos construiu já conseguiu vender umas unidades para a Alemanha. 

[PAVE] Acho muito bem. Muito bem. Esses alemães também já se fartaram de nos enganar. Não tenho pena nenhuma.

[IF] Mas talvez tenha sido o investimento em vocês todos que permitiu à empresa portuguesa hoje estar a exportar. 

[PAVE] Ó meu amigo, se para as empresas portuguesas produzirem e exportarem é preciso vender primeiro aos portugueses e plantar monos no chão durante uma década, estamos feitos. O mundo já está sensibilizado para a problemática das experiências com animais, talvez seja altura de começar a sensibilizá-lo para as experiências com portugueses. Imagine que aquela ideia de levar turistas ao espaço tinha sido de uma empresa portuguesa. Estou certo que a TAP, a Carris, a STCP e uma série de câmaras já tinham adquirido umas centenas de foguetões.

[IF] Gostávamos de continuar a nossa conversa, mas estamos a ficar sem bateria no gravador. 

[PAVE] Veja bem a ironia…