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Elsa agora, olhem que isto, hein

Por causa das alterações climáticas – mas não só, pois há uma parte que é culpa da falta de fé – temos de nos habituar aos fenómenos meteorológicos. Sempre ocorreram tempestades, é verdade, mas agora são tempestades das alterações climáticas, muito mais apocalípticas.

Antigamente ficávamos sem electricidade, caíam árvores, os rios subiam, havia derrocadas, ninguém conseguia secar a roupa, mas depois passava. Agora ficamos sem electricidade, caem árvores, os rios sobem, há derrocadas, ninguém consegue secar a roupa, mas o pior é que não se sabe se passa.

Esta é uma realidade com que os povos têm de aprender a lidar. Acontece que é mais fácil para uns do que para outros. No caso de Portugal, a passagem de uma depressão acabou por mandar pelos ares, entre muitas outras coisas, o orgulho nacional.

Foi a gente que descobriu o mundo. Se não fossem os portugueses, isto ainda ninguém se falava, nem sequer sabíamos uns dos outros. Dobrámos tudo o que havia para dobrar. Enfrentámos tormentas e até monstros marinhos. Aparece a Elsa e não há barco para o Barreiro.

Imagine-se os nossos heróis a olhar para isto. Estamos a falar de indivíduos que passavam meses no mar, sem saber onde estavam ou se tinham mantimentos para chegar a lado algum. As ondas ultrapassam em altura as velas. Mesmo assim, faziam-se ao mar e ninguém voltou para trás. Só havia duas hipóteses, em frente ou ao fundo.

Aparece a Elsa e “ah, não, isto não está navegável”. Por volta de 1487, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas. Pouco tempo depois, Vasco da Gama arranja um atalho até à Índia e volta. Parece normal, hoje em dia, voltar, mas naquele tempo ir já era épico. Em 1500, Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil. Em 1519, iniciámos a viagem de circum-navegação. Em 2019, tivemos de chamar um autocarro para irmos até ao Barreiro.

Quem nos viu e quem nos vê. Se hoje há luas de mel em ilhas paradisíacas no meio do nada, fomos nós, portugueses, que mostrámos o caminho. Encontro muitas selfies no Instagram, de pessoas elegantes em ilhas de sonho. Quase sempre comento “se não fosse um tuga, estavas no terraço de casa dos teus pais e olhe lá”.

Para alcançar tudo isto, muitos sucumbiram à disenteria, tifo ou escorbuto. Eram então as dietas da moda. Hoje, apanha-se uma gripe no apeadeiro.

E o que dizer do jipe da GNR, meio submerso, em Valado de Frades? Vencemos muçulmanos, otomanos, romanos, espanhóis e franceses, mas chegou aí a Elsa e os nossos militares tiveram de subir para o tejadilho e esperar pelos bombeiros.

Numa altura em que tanto se discute os programas de história nas escolas, sou da opinião que devemos saltar esta parte. Ninguém dará conta se faltarem ali uns anos. Mas em verdade também digo, os heróis da nossa história que não se riam, porque deviam ter visto a Elsa. É melhor nem repetir o seu nome, que ela ainda volta, pensando que alguém a chamou.  

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