Editorial: Pôr Espanha a avaliar os restaurantes portugueses é como pôr os suíços a avaliar os chocolates belgas

Esta semana, em Sevilha, realizou-se a Gala do Guia Michelin, o famoso livro de recomendações gastronómicas. Portugal é apenas um capítulo de um guia que é essencialmente de Espanha. Não podemos papar isso. 

As notícias chegaram das estrelas atribuídas e das que se perderam. Mas ninguém cuidou de que é um Guia feito em Espanha, por espanhóis, com um único inspector português, tipo prémio de consolação. Mas pôr Espanha a avaliar os restaurantes portugueses é como pôr os suíços a avaliar os chocolates belgas, os franceses a avaliar os carros alemães, a China a avaliar a tecnologia norte-americana. 

Não se encontra na Europa outro exemplo de um país que é avaliado por outro. Existe um Guia Bélgica & Luxemburgo, mas enfim, o Luxemburgo não é propriamente um continente. Também há o Guia Grã-Bretanha & Irlanda, que também se percebe. Espanha & Portugal é uma aberração, sobretudo quando o centro de decisão do Guia ibérico está 100% em Espanha. 

É, por isso, de se mandar o guia para trás. Não está no ponto. Se houvesse um guia Michelin para os guias gastronómicos, quantas estrelas tinha o Guia Espanha & Portugal? Bom, se a avaliação fosse feita em Espanha teria naturalmente 3 estrelas. 3 estrelas não, 3 sistemas solares.

Em abono da verdade, qualquer pessoa com juízo reconhece que a gastronomia em Espanha vai bastante à frente da gastronomia em Portugal. Mérito dos espanhóis, claro, mas para o qual também terá contribuído um reconhecimento justo do Guia Michelin, ao longo de décadas, porque isto de se ver o trabalhinho recompensado ajudada bastante à evolução. 

Ora, se durante muitos anos até se podia justificar que Portugal aparecesse apenas como um encarte do Guia de Espanha, porque havia pouca escolha, sobretudo ao mais alto nível, hoje não faz qualquer sentido e não podemos, todos os anos, receber agradecidos as estrelas que Espanha atribui a Portugal. Temos de mandar o guia para trás e exigir à Michelin a edição de um Guia de Portugal, feito em Portugal, por portugueses, seguindo as mais apertadas regras internacionais do famoso Guia. Não é pedir muito, é pedir o que acontece com a generalidade dos países. 

Não se justifica Portugal não ter nenhum restaurante com três estrelas e ter tão poucos com duas e com uma. E esta não é uma apreciação meramente patriótica, é um facto já comprovado por um reconhecimento internacional muito superior àquele que é reflectido no Guia de Espanha. Perdão, Guia de Espanha & Portugal. 

Nos guias gastronómicos como nos restaurantes, não devemos aceitar tudo o que nos metem à frente.