Editorial: As faltas dos políticos não são um problema, o problema é quando eles aparecem

Parlamento-Europeu

Felizmente, a campanha para as eleições europeias está a ser marcada por muito pouca política europeia, que, como se sabe, é uma coisa muito chata e enfadonha. A marcar a contenda eleitoral estão, como quase sempre, factos de somenos e questiúnculas, coisas que também são chatas e enfadonhas, mas ainda assim mais apelativas que as quotas do peixe.

Uma das coisas que se tem discutido, por exemplo, é a produtividade e as faltas dos eurodeputados. Sabe-se, por exemplo, que Francisco Assis foi dos eurodeputados que menos produziu e mais faltou, quando passou pelo Parlamento europeu. Não sei se esta informação é verdadeira, pois por defeito profissional desconfio sempre muito da imprensa.

Seja como for, a ser verdade, este é provavelmente o maior trunfo de Francisco Assis nestas eleições europeias, mais do que qualquer ideia ou concepção que o candidato tenha sobre o projecto europeu. Isto porque no caso dos políticos, quanto mais faltas e menos produzirem melhor para todos. Os políticos são os únicos profissionais a quem se pede que não apareçam no serviço.

No lugar de Assis, eu até gritava nos discursos: «Minhas amigas e meus amigos, quem produziu menos, quem foi? Quem é que raramente pôs os pés no Parlamento? Quem é que ia lá só buscar o cheque e mesmo assim às vezes pedia para pagarem pela internet, quem era? Era eu meus amigos e minhas amigas…»

Mas Rangel e Melo não se podiam ficar e teriam rapidamente de ripostar: «O candidato do Partido Socialista diz que foi o que produziu menos, mas é falso, minhas amigas e meus amigos. Vejam aqui os registos do Parlamento europeu, no último mandato. Ninguém fez menos do que eu. Vejam o gráfico. Aliás, há pessoas que não foram eleitas para o Parlamento europeu, que nem sequer se candidataram, mas ainda assim produziram um pouco mais do que eu. As crianças nas visitas de estudo ao Parlamento europeu, por exemplo, fizeram muito mais do que eu. E discursaram, cada um, em média mais 120 minutos.»

A verdade é que a falta de produtividade e as faltas entraram definitivamente no debate político. E os eleitores vão poder finalmente votar em consciência nos candidatos que, pelo seu passado, pelas ideias que defendem e pela folha de presenças, prometem aparecer menos vezes.