Editorial | Equações Legislativas

Já foi bastante mais simples o ofício do eleitor português. Em tempos, bastava escolher um candidato ou um partido, ir lá e votar. Isto para não falar em tempos ainda mais simples, quando votavam por nós. Mas agora não. Agora há sempre uma complicada aritmética política que obriga o eleitor a saber não apenas em quem ele vai votar, mas também em quem vão votar todos os outros eleitores, que ainda são uns punhados deles. 

As maiorias absolutas ou relativas, o peso deste ou daquele, a influência do Presidente em caso de 2/3 disto ou daquilo, geringonças e queijos limianos… são tantas as equações e os cenários possíveis que se colocam aos eleitores que, em vez de um dia de reflexão, era preciso um dia de combinação. Os eleitores iam até um café para ver quem votava em quem. Até chegar a GNR e levar tudo dentro por jogo ilegal.

Por exemplo, quando Jerónimo diz que é preciso dar força à CDU porque o PS sozinho mete mais medo que a vespa asiática, se todos fossem atrás de Jerónimo, a CDU tinha 100%. Mas se todos pensam “ah, calma, a CDU tem sempre alguma força, não precisa do meu voto”, então a CDU terá 0%. É por isso necessário os eleitores saberem, entre eles, quem é que vai votar na CDU. 

“Tu vais, Vítor? E tu, Alexandre? Também tu, Maria? Ok, quem vai votar na CDU levante o braço, por favor!”, pede um dos eleitores que aceitou ficar na organização. 

Assunção Cristas também já veio dizer que 2/3 do Parlamento à esquerda tornam o Presidente da República “irrelevante”. Bom, é exagero da líder do CDS, porque teremos sempre as selfies, mas admitindo que a sua preocupação faz sentido, o Parlamento pode ficar com 3/3 à direita, porque ninguém votou à esquerda, derivado do receio de o Presidente tornar-se irrelevante. 

Também é aqui preciso saber, antes, “pessoal, quem é que vai votar à esquerda? já sabem que não podem ser 2/3 para o Presidente não se tornar definitivamente num filtro de Instagram”. 

O caso torna-se ainda mais difícil se colocarmos na equação os novos partidos, nomeadamente os que concorrem pela primeira vez. O eleitor que simpatize com as ideias de um partido novo tem de perceber se mais alguém simpatiza e se simpatizam os suficientes para orientar uma cadeira pelo menos.

O fenómeno é que o jogo político passou para o discurso e já não basta ao eleitor saber em quem vai votar, mas também em quem vai votar o eleitor do lado. Um dia de reflexão para isto não chega. Tem de ser um dia no acelerador de partículas. 

Uma solução para isto? É votar em quem lhe apetecer. Só não vote em consciência, porque já vai votar muita gente, depois a consciência tem maioria absoluta e acaba-se a pândega.