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Censos e as perguntas que ficaram por fazer

Ora, os Censos. Fiquei com aquela sensação de que a Google continuará a saber francamente mais a meu respeito, e do meu agregado, do que o Instituto Nacional de Estatística. Como se não bastasse, a Google nunca precisou de me perguntar nada, nem me enviou cartas com códigos. A Google faz censos sem chatear ninguém. E à Google também não podemos mentir, coisa que jamais alguém faria ao Instituto Nacional de Estatística, claro.

Só por hipótese meramente académica podemos admitir que um indivíduo tenha dito que reside numa morada onde, na verdade, residem estudantes e/ou turistas. Já o Google sabe perfeitamente onde dormimos, com quem, quantas horas, e até se roncamos. Chupa, INE.

Tenho de admitir que não percebo nada de Censos e só por causa disso estou perfeitamente habilitado a pronunciar-me sobre eles.

À medida que se vai respondendo às questões, ficamos com aquela sensação de que se trata de um inquérito da CMTV para ajustar os anúncios nos seus intervalos. Vê bem? Ouve bem? Mesmo com aparelho auditivo? E sobe escadas? Fiquei à espera que me perguntassem se um cadeirão com massagens podia eventualmente ajudar, sobretudo se fosse reclinável, com função de levantar as pernas para melhorar a circulação. Entre estes Censos e a ficha de inscrição num lar não devem existir grandes diferenças. Bom, nos Censos não é preciso colocar o IBAN para o débito directo e isso já é uma enorme diferença.

Apesar de o inquérito parecer simples, não é. Nada. Se nos conseguimos vestir ou fazer a nossa higiene, dependerá sempre do dia e da hora. Por exemplo, na passagem de ano, por volta das 5 da madrugada, talvez não. Ou durante a quarentena, a meio da tarde já era preferível optar por uma t-shirt para evitar ter de meter os botões nas casas. Sobre a falta de memória ou dificuldade de concentração, quantas pessoas não responderam que não sofrem de nada disso, mas passam, com frequência, largos minutos à procura do telemóvel a meio de uma chamada? Isto para não falar de quem considerou a pergunta estapafúrdica numa declaração de IRS.

Temos depois a questão das crianças. Foi por muito pouco que eu não disse ao INE que uma criança de 5 anos vai para o estabelecimento de ensino de automóvel ligeiro, como condutora. E tomam banhos sozinhas, as crianças? Mais ou menos, não é? Elas acham que sim, porque para elas tomar banho é apontar o chuveiro para a testa durante alguns segundos. Sobre a falta de memória e dificuldade de concentração, nas crianças a pergunta devia estar dividida em duas, porque memória é mentira, mas concentração é total. Nem nos ouvem. Venham jantar. Nada. Banho. Muito menos. Calça os sapatos. É o calça tu. Leva o casaco. Não leva. Como responder, então, ao Instituto Nacional de Estatística?

Entretanto, quando achamos que já acabou, é a vez de falar do “alojamento”. Sobre este ponto, quero dar uma dica ao INE. Não basta perguntar se temos ar condicionado. É preciso perguntar se o ligamos. E depois, em caso de resposta afirmativa, é preciso outra pergunta: Como paga a conta da luz? Eu tenho ali ar condicionado, mas já fez tanto frio como a jarra. É placebo. Olhar para ele fica logo mais fresco. Com isto, ocorre-me um negócio novo. Vender só as tampas de aparelhos de ar condicionado. Vou fazer uma startup.

Mas enfim, respondemos todos só para não levar com a multa, não foi? Então pronto.

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