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A “Adolescência” na Netflix

A arte a transmitir mensagens importantes de forma encriptada. Esta minissérie tem de ser vista e deve ser recomendada não apenas pelo seu lado de entretenimento, mas sobretudo pelo seu lado pedagógico.

Adolescência é uma minissérie da Netflix, em quatro episódios. São quatro, mas podiam ser dois, porque Philip Barantini fez render o peixe, não tendo pressa nenhuma. É uma espécie de curta-metragem transformada em minissérie de quatro episódios. Este estilo lento e pausado choca bastante com a arte moderna de filmes (ou vídeos) sem interrupções, porque as novas gerações sofrem muito de ansiedade e défice de atenção, tendo de ser agarradas à força, neste caso não permitindo que nada as distraia do ecrã.

Até já há apps para editar os vídeos de maneira a que não fique um único segundo perdido entre as falas. Nem para respirar. É a única forma de agarrar os internautas, sobretudo os mais jovens. Um segundo e pronto, perdemo-los. Já estão a fazer outra coisa.

Assim, suspeito que o público de Adolescência seja todo mais velho, pelo menos o público que fica até ao fim. E não há problema nenhum, porque é também para esse público que esta minissérie se dirige. Mas já lá vamos, porque antes é importante dizer que o ritmo desta minissérie não é nada para fazer render o peixe, é um estilo deliberado para que se entre naquele drama e para que o drama seja o mais real possível. Este objectivo foi alcançado. Os diálogos na vida real, sobretudo com aquela gravidade, são assim. Não são como tantas vezes se fazem, uma sucessão de frases inteligentes intercaladas por outras ainda mais espertas, sem que se dê tempo para pensar. Fica um diálogo incrível, pois fica, desde logo por parecer falso.

Em Adolescência, se não fomos entretanto fazer o jantar, lavar o carro ou se não estivermos já no telefone a ver reels muito “divertidos”, entra-se completamente no drama. Vive-se aquele drama.

E este drama não é tanto para os adolescentes, pois não. É mais para os seus progenitores. É um alerta público para vários perigos que o mundo digital esconde. Mais um alerta, quando todos parecem poucos. Esta minissérie talvez tenha mesmo de se ver, para além de se querer. Deve ser recomendada não apenas pelo seu lado de entretenimento, mas sobretudo pelo seu lado pedagógico. Há ali mensagens e não são aquelas mensagens políticas a que estamos tristemente habituados. Não, é um drama que convém perceber.

A este propósito, e voltando ao ritmo lento da história, parece feito para que a mensagem fosse mesmo apenas para os pais. Como se assim estivesse encriptada. Ninguém agora na adolescência, na verdadeira adolescência, consegue assistir a esta minissérie. Ao cabo de 5 minutos – pronto, ao cabo de 10 minutos – já estará a fazer outra coisa. O que também deve ser motivo de preocupação, mas uma preocupação de cada vez.

Com tudo isto, atenção, não se quer retirar arte à obra, porque tem muita, mesmo muita, destacando-se as representações de Stephen Graham, como Eddie Miller, e Owen Cooper, como Jamie Miller, mas também as técnicas de filmagem.

Nos bastidores de Adolescência

Esta minissérie é especial em vários aspectos, também no plano técnico, razão pela qual a Netflix mostra os bastidores:

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