Sexta-feira, Julho 1, 2022
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Salgado das neves

Ricardo Salgado já está na Suíça, segundo rezam as notícias. Foi passar o Natal com a família e terá informado as autoridades, que aceitaram a viagem à semelhança de anos anteriores. Salgado promete voltar – parece o título de um novo romance do Chagas Frito – e eu não tenho dúvidas de que regressa mesmo. Porquê? Desde logo porque a Suíça é muito bonita mas ao fim de algum tempo cansa. É tudo muito certinho. Há quem prefira estar preso em Portugal do que livre na Suíça. Mas porque é que eu digo estas coisas? Ainda por cima sou fã da Suíça e aquela pitoresca pasmaceira em rigorosamente nada me cansa.

Ricardo Salgado regressa porque está, para já, acusado de três crimes de abuso de confiança. É mais grave passar numa portagem sem pagar. Posso ter exagerado, mas não é assim coisa de grande monta. Sendo condenado, pode até substituir a prisão por multa – não estou certo, mas se existir prisão efectiva é por uma unha negra. Talvez pelos valores envolvidos tenha de passar uns tempos a responder por um número. Mas mesmo a expressão abuso de confiança é abonatória. Tinha confiança, mas abusou. Raça do miúdo. Dá-se-lhe a mão…

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E regressa, também, porque pagou uma caução de 1 milhão e 500 mil euros no âmbito de outro processo. Ou seja, pagou esta quantia para não ficar trancado em casa, é natural que o Tribunal – que já deve ter rebentado o dinheiro em resmas de papel – aceite que o senhor vá lá ver as vaquinhas na Suíça, já que as de Odemira não lhe chegam. (Um parêntesis para comparar cauções. Salgado levou com uma de 3 milhões, disse que não tinha arame, ok, está bem, ficou então no milhão e meio. Pinho levou com 6 milhões, também disse que não tinha arame, mas ficou preso na casa da sogra. O português médio – tipo eu – constatando que a Justiça deve ser igual para todos, conclui preventivamente que Manuel Pinho deve ter abusado o dobro. Isto medindo cauções.)

Mas dos processos todos, e são alguns, Salgado tem apenas, neste momento, três acusações. E são acusações, ou seja, calma. Alto lá. Agora é preciso ver. Mas, entretanto, que horas são? Agora só amanhã. Amanhã não, porque são férias judiciais. Depois o juiz muda, porque este casou-se. O Tribunal mete água, foi a chuva intensa.

Faz sentido que nos interroguemos sobre como é possível alguém envolvido em suspeitas tão graves, ao cabo de tantos anos, ter apenas três acusações. E não estou com isto a dizer que devia ter mais, porque não faço ideia. No limite, podia não ter nenhuma. Não sei nem quero saber. Felizmente não sou eu que tenho de ajuizar, porque só de ler multas já fico com a vista cansada. Mas mesmo para os próprios suspeitos, acredito que a espera não seja justa. Isto se forem inocentes, claro, porque noutro caso assim está óptimo. Até é demasiado célere.

É a complexidade dos processos, dir-me-ão. Bernard Madoff – e não estou a compará-lo a Ricardo Salgado, são apenas processos financeiros de elevada complexidade – foi preso em 2008, acusado em 2008 e condenado em 2009. É verdade que confessou os crimes, mas suspeito que em Portugal tal confissão possa ser um problema para o processo, na medida em que é preciso avaliar se o arguido ensandeceu. Está o próprio aos gritos no Tribunal, “mas eu juro, eu cometi essas fraudes todas e até mais”, lá tem de se adiar tudo porque o arguido não está bem. Depois metem-se as férias judiciais. Muda o juiz outra vez, agora divorciou-se. Entretanto o Tribunal vai para obras. Não, não foi a chuva, caiu o estuque.

Convenhamos que isto não é bom para ninguém. Ricardo Salgado – ou qualquer outra pessoa – já devia estar condenado ou ilibado. Era bom para todos. Ricardo Salgado não precisava de estar a dormir de fato e gravata, lá na Suíça, com receio de que apareça a Judiciária montada num limpa-neves com a polícia da montanha.

Os processos têm de demorar, no máximo, um ano. Se os portugueses fazem asneiras com muita complexidade, então entra mais gente. Saem aos milhares das faculdades de Direito todos os anos, vão fazer tudo menos Direito, é dar-lhes uso. Pagar bem. Porque advogados há aos pontapés. Juízes é que parece só um casal, ainda por cima desavindo. Todo o investimento na Justiça tem retorno, porque é garantidamente um dos maiores buracos da pátria, responsável por muitos outros.

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