Renovação automática do cartão do cidadão (Editorial)

Lá diz o povo e com ternura, não há fome que não dê em fartura. Depois de enormes filas, de muitos atrasos, de grandes zaragatas e até inclusivamente guerras para se conseguir pedir o cartão do cidadão, eis que o Governo anuncia a renovação automática do documento. Parece vingança, do estilo “ai querem os cartões, querem? estão com pressa, é? tomem lá os cartões, tomem, o do cidadão, a carta de condução, o documento único automóvel, querem mais? tomem o cartão de sócio do ACP, os descontos na Repsol, a Mercadona já tem pontos? a gente faz!, tomem os pontos da Mercadona, tudo automático”. 

O cidadão, já só a ver-se os olhinhos, pois para baixo é tudo cartões, implora para que cessem a emissão de cartões e promete nunca mais reclamar. 

Acontece que, no caso do cartão do cidadão, a renovação automática parece um pouco absurda. Há já, aliás, uma ressalva para o caso de serem precisos novos dados biométricos, porque às vezes os dedos crescem. É do glúten. Nesse caso, o cidadão tem de ir ao castigo. 

Mas… e a fotografia? Como vão ultrapassar eles esta questão? Chegará um cidadão aos 95 anos com a sua fotografia de 22, idade com que o seu dedo parou de crescer? Para isso mais vale manter a fotografia de bebé, pois pelo menos a careca é capaz de coincidir. 

Em geral, quando um cidadão contrai matrimónio, passados 2 anos tem mais 1 tonelada e poderá ter perdido alguns centímetros, justamente por causa do peso. Como é que pode apresentar um cartão do cidadão com uma fotografia do tempo em que ainda ia à pesca? Grosso modo, imagine-se o Fernando Mendes a mostrar a sua identificação com uma fotografia do Rúben Rua. Este Fernando não vai a lado nenhum. Pode até ser detido.

E o Fernando Mendes é mesmo um bom exemplo, pois acaba de fazer uma grande dieta que o aliviou num número indeterminado de libras. Agora é o Rúben Rua a mostrar uma identificação em que aparece o Fernando Mendes. 

Então e aqueles que, hipnotizados pelos anúncios na rádio, foram à Nutribalance? Esses também deviam fazer um cartão novo. Há uma senhora que já veste as calças da filha. Pelos vistos também pode usar o cartão do cidadão da miúda. E há um outro, jovem, que também perdeu peso e até está com muito mais sucesso com as raparigas. Não lhes mostres é o teu cartão do cidadão, rapaz, pois quando elas perceberem que afinal andam a sair com o boneco da Michelin, voltas logo a ser campeão de Fortnite em três tempos. 

A verdade é que se afigura, aos olhos dos leigos, de extraordinária importância ir actualizando o cartão do cidadão, junto de um funcionário público que possa confirmar os dados e a veracidade da informação. Isto porque, no limite, podia enviar-se as fotografias digitalmente. Ou seja, a malta deixava de aldrabar apenas no Instagram, passando a fazê-lo também no documento oficial. De repente, o Simplício Joaquim Pereira Trindade ficou muito parecido com o modelo que faz os reclames à linha de roupa interior da Calvin Klein. 

Parece que é mesmo de difícil explicação a ideia de uma renovação automática dos cartões de cidadão, sendo que o problema nem é tanto cá, pois o Governo que aprovasse tal medida não ia duvidar de ninguém. Dão a volta. Passam a pedir também o Facebook do Cidadão, porque aí é que está mesmo tudo actualizado. 

O grande problema é lá fora, naquela área gigante que equivale a muitos campos de futebol e a que chamamos estrangeiro. Aí é que documentos oficiais desactualizados podem dar um impasse diplomático. Juntando isto aos atrasos da TAP, é possível estar uma semana só para ir visitar uma alfândega. E se calha no regresso a Portugal um funcionário do SEF mais rigoroso também não nos deixar entrar. E pronto, fica-se a morar na recolha de bagagens. Pelo menos não se esteve na fila do cartão do cidadão.