Educação a mais

Educação-IDHMuito se tem falado em Educação, em Portugal. Mas não é nos últimos dias. É nos últimos anos, mais concretamente nos últimos 40 anos. Na verdade, parece que nunca deixámos de estar a falar sobre a Educação. Ora são os professores, ora são os alunos, ora são os manuais, ora são os métodos, ora são as avaliações, ora são os programas e as metas curriculares, ora são as próprias escolas, é basicamente tudo. Estamos há 40 anos a discutir a Educação.

E portanto, em 40 anos, houve 26 ministros desta pasta. Em média, cada mandato durou um ano e meio, sendo que a maioria dos ministros quis mudar a Educação em Portugal de raiz. Para trás estava sempre tudo mal. Tinha de se fazer de novo. Ou seja, as mudanças, em média, também duram um ano e meio.

Como é que superámos o analfabetismo é que ninguém sabe. Os portugueses devem ser autodidactas, porque tendo em conta a estabilidade do sistema de ensino, não devíamos saber apertar um sapato.

Fala-se hoje muito da hiperactividade das crianças. Provavelmente apanharam-na na escola. É que uma criança na 4.ª classe já conheceu 3 ministros, 3 métodos de ensino, 3 métodos de avaliação, 3 programas e a escola já levou obras 3 vezes mas continua a chover lá dentro. Estranho seria se, depois de tudo isto, a criança não pulasse freneticamente até levar com um tranquilizante para cavalos.

Bom, mas cá vamos andando e até já sabemos os dias da semana, as cores do arco-íris, umas partes do hino… isto até nem corre assim tão mal. Ou pelo menos não parece, pois na verdade, tamanha instabilidade no sistema de ensino só pode formar gerações de profissionais assim-assim, que não dão importância à organização, à estabilidade, ao rigor, a nada.

Um profissional que se formou em Portugal e não fez um retiro espiritual para se limpar, chega ao mercado de trabalho e vai estar sempre à espera que a sua direcção vá para a rua e que aquela que a vai substituir faça tudo de novo, nomeadamente alterar as metas e os objectivos, que provavelmente não estavam a ser cumpridos.

Falando por mim, há uma série considerável de anos, quando ainda no liceu, houve um ano em que faltavam professores em três ou quatro disciplinas. Foi um daqueles anos que arrancou bem. Claro que nas aulas de Química, se bem me lembro era uma das disciplinas para a qual tinham encontrado um docente, já se saltava pela janela. Quem é que controlava uma turma em plena puberdade depois de dois furos, ou seja, a última aula tinha sido há mais de duas horas!? Ainda hoje acredito que foi por causa disso que nunca fui astronauta, como tencionava. Admito que não foi por causa disso, até porque viria mais tarde a entrar num colégio, já com os professores todos. Entretanto, se me pagaram alguma coisa, desde já o meu obrigado.

A verdade é que a responsabilidade era pouca. Refiro-me aos responsáveis pela Educação, claro. Porque quando um aluno tem más notas, a culpa é dele. Mas… e quando um aluno nem sequer tem nota? Só mesmo como desculpa muito esfarrapada é que um pai chega a roupa ao pêlo do filho porque o pequeno chegou a casa sem nota a matemática porque não tem professor.

Mas o pior ainda está para vir. É que o problema da Educação pode não ter solução, encaixando perfeitamente naquela imagem da pescadinha de rabo na boca. Como é que pessoas que se formaram num sistema de ensino instável conseguem dar estabilidade ao sistema de ensino?

Por exemplo, o actual o ministro – e o anterior, pronto, que é para não enfurecer nenhuma claque – não são eles os culpados. Quando eles passaram pela escola também conheceram umas centenas de ministros e de avaliações e de programas e até de ementas na cantina. Eles só estão a fazer o que lhes ensinaram. Tinham de sair muito tresmalhados para conseguirem pôr isto na ordem.