Terça-feira, Setembro 27, 2022
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“Na escola não era popular, foi só quando fui para Santo”: Santo António fala em exclusivo com o Imprensa Falsa

Um dia depois do seu dia, o Santo António aceitou falar em exclusivo para o Imprensa Falsa. Não deu para falar no próprio dia porque se encontrava de ressaca. “Ainda não estou a 100%”, interrompe logo.

IF: Santo António, já sabemos que nem sempre foi Santo, mas e popular, já era?

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SA: Também não. Na escola, não. Tinha poucos amigos, muitos nem sabiam o meu nome, eu andava sempre na minha, eu e o João, que depois também se viria a tornar Santo, ou melhor, ele tornou-se São, deixou de comer batatas de pacote, comer donuts e fumar.

IF: Então o Santo António e o São João eram amigos…

SA: Até ele ir para o Porto, porque o pai arranjou um trabalho numa firma lá em cima, e desde então falámos pouco, naquele tempo o whatsapp era um desgraçado a cavalo que demorava 4 meses para levar a mensagem.

IF: Sendo assim, quando é que se tornou popular?

SA: Foi quando me tornei Santo, claro, vinha tudo beijar-me a mão e eu a ter que meter para dentro, porque não fica bem a um Santo, naquela ocasião, dizer “ah, agora vens cá, não é, seu cabrão…”, mas pronto, muitas vezes apetecia.

IF: Nunca se “passou”?

SA: Várias vezes. Mas só consigo no meu dia, porque no meio da festa um gajo cai e ninguém sabe quem foi. Agora, se estivermos só os dois, por exemplo, já posso ter problemas.

IF: E gosta da sua festa?

SA: É assim. Como é a Câmara que paga e depois cada uma paga o seu, eu não me queixo. Mas se fosse eu a organizar era diferente, não vou dizer que não.

IF: Como por exemplo?

SA: Olhe, para começar era em Ibiza. Eu gosto muito de Lisboa, atenção, nem nunca iria apadroar outra, porque nessas coisas sempre fui certinho. Não, a sério. Fiz muitas asneiras até ser Santo, mas só apadroei Lisboa. Agora, para festas à antiga… vamos lá ver, Ibiza é outra coisa. Percebo a cena da música pimba, da sardinha e tal, mas isso não é bem uma festa, isso para mim é uma sexta-feira.

IF: Sempre quis ser Santo?

SA: Nunca trabalhei para tal. Pelo contrário. Quando mandei o que eles pediam, o meu pai disse-me para mandar também para o Batista Russo, que era mais certo.

IF: Mas depois acabou por ser um dos mais populares…

SA: Sim, penso que sou um Santo mais próximo das pessoas, os meus colegas são todos muito sisudos. Qual deles é que permitia tocar música, numa festa sua, que pergunta quem é o pai da criança e a outra que te quer conhecer para dançar o pereré?

IF: Talvez o São João…

SA: Ah, pois, mas esse é outro maluco.

IF: Como vê o futuro da sua festa?

SA: Essa é fácil. Sardinhas a 50€/kg, 20€ o copo de cerveja. O copo, depois a cerveja são outros tantos…

IF: Está a referir-se à inflação, mas enquanto Santo não havia nada que pudesse fazer?

SA: Havia, claro. Ascender aos céus por uns tempos. Pirar-me daqui. E eu para ascender não preciso de passar no controlo de segurança do aeroporto, porque nesse caso talvez nem ascender conseguisse, tal é a situação.

IF: Estávamos a pensar mais num milagre, não era em algo que pudesse fazer só por si.

SA: Mas pensam que isto da inflação não afecta também o sector dos milagres? É uma bola de neve. Fica tudo mais caro. É que as pessoas pensam que isto é tudo assim espiritual, que não há despesas. Era bom.

IF: Quando os preços voltarem a baixar, que loucura assim em termos de milagres gostava de realizar?

SA: Cerveja canalizada em Lisboa durante o mês de Junho. Uma excentricidade.

IF: Uma última pergunta, Santo António de Pádua ou de Lisboa?

SA: De Lisboa, claro. Cada vez mais. Então eu também fui nómada… só não fui nómada digital porque ainda não havia o digital. Posso não fazer apps, mas prego aos peixes, que também é criativo.

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