Mudar as alterações

Quem passar os olhos pelo relatório climático das Nações Unidas, fecha-o lentamente, vai até ao quadro, desliga a electricidade, vai buscar o fato de mergulho, com muita calma, veste-o e deita-se na cama à espera. Isto é o mínimo, mas pode haver quem tenha reacções piores. 

O tom alarmante percebe-se. É para alarmar. 9 em cada 10 tons alarmantes são para alarmar, só um foi engano. Grande parte da Humanidade está neste momento com aquela sensação de culpa, como se tivesse escangalhado o planeta. Fugiu-lhe das mãos, estatelou-se no chão da cozinha. Era o planeta preferido. Já não fazem outro igual. 

As alterações climáticas são uma evidência, ninguém pode negar. Estão aí. Quem negar, é preencher a ficha, vestir a bata e ir até ao jardim, que agora às 11 vão ter aula de pintura. 

Mas se as alterações climáticas são uma evidência, as suas causas já devem ser estudadas e avaliadas em permanência. A responsabilidade do Homem, por via da poluição e da destruição de ecossistemas, será alguma, depois há muitos outros factores naturais, sobre os quais o Homem não tem qualquer tipo de responsabilidade. Isto se, por exemplo, os incendiários, limitados pela pressão das autoridades na floresta, não se lembrarem de ir activar vulcões. 

Ora, se assim for, nas nossas mãos só está a tal poluição e destruição de ecossistemas. Nada mais podemos fazer. E a nossa preocupação deve ser nessa medida. Não devemos olhar para as cheias na Alemanha e concluir que fomos nós que provocámos aquilo, há uma semana, quando fomos ao pão de carro. O antropocentrismo atingiu o seu apogeu nesta era em que o Homem acredita que, comprando um carro eléctrico ou um frigorífico A++, diminuirá a temperatura do planeta. O Homem deu cabo do planeta por achar que nada mais interessa para além do seu bem-estar e é com a mesma filosofia que tenciona resolver o problema. Não muda nada, mantém-se todo o crescimento económico, só temos aqui de substituir as fontes energéticas por umas limpas, substituir o carvão pelo sol, pelo vento ou pelas ondas. Chamamos a assistência, chega aí na janela entre as 8 e as 14, leva a termoeléctrica e deixa-nos o parque eólico.  

Mal não fará, qualquer que seja o desenvolvimento de energias mais limpas. Não são limpas, são mais limpas. Ou são menos sujas. Mas acreditar que com isso vamos controlar a temperatura do planeta, passando quase a poder defini-la através de um comando na parede, faz lembrar o optimismo malévolo dos vilões de Ian Fleming, com todo o respeito.

Ironicamente, enquanto se procuram soluções para combater a emissão de gases, o Homem continua a destruir aquela que é a melhor solução, uma invenção muito antiga. Trata-se de um equipamento vertical, preso ao chão, que se abre em hastes no topo. Já devem ter visto. Chama-se árvore. As árvores continuam a tombar, às vezes para instalar unidades de produção de energia limpa. Outras vezes para nos permitirem comprar uma consola para a sala por €499. Temos também muita desflorestação para a agricultura. E as cidades? Todos querem viver na cidade e salvar o planeta ao mesmo tempo. 

As florestas, diz quem sabe, podiam limpar-nos isto tudo, mas o Homem prefere o centro comercial, por isso abate a floresta para construir o centro comercial, depois abate ainda mais floresta para construir a fábrica de energia limpa, mais um pouco de floresta para instalar o parque solar e acredita que vai conseguir controlar a temperatura do planeta, como já controla a temperatura dentro do próprio centro comercial. Há dias, enquanto procurava soluções para os desafios climáticos do planeta na minha garagem, ocorreu-me colocar aparelhos de ar condicionado em órbita, tipo satélites, mas a deitar frio. A ideia caiu por terra quando me chamaram para jantar.  

Pela minha parte, desconheço qual a percentagem de culpa do Homem nas alterações climáticas. A poluição terá com certeza os seus efeitos também a esse nível. Mas tomando isto por certo, então o que há a fazer é muito mais. Não é comprar um carro eléctrico nem meter painéis no telhado. É mudar tudo. Parar a economia, usar a luz do dia, ficar com os móveis dos pais e dos avós, coser a roupa quando se rasga, comer o que se planta e o que está à volta, substituir os parques industriais por parques naturais. Talvez assim, em 20 anos, se conseguisse provocar alguma alteração no termómetro da Terra, contando que, durante esse período, nenhum outro fenómeno natural – sol, vulcões – contrariasse todo o esforço. 

“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, concluiu Lavoisier, certo dia, enquanto comia um combinado 8 no Galeto. Estes incêndios a que assistimos não são uma tragédia. São uma tragédia para a Humanidade. A subida do nível das águas não é uma tragédia. É uma tragédia para a Humanidade. Enquanto a Humanidade acreditar que está no centro do Universo e que domina tudo, está feita ao bife.

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