Quarta-feira, Janeiro 28, 2026
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Depois da imprensa livre, livres da imprensa

Arrisco uma aposta. Vamos ser dos primeiros países a ficar sem imprensa e a viver do que se produz nas redes sociais, com todos os riscos que isso acarreta e não são poucos. São todos.

Os jornais em papel vão deixar de chegar a algumas regiões do país, curiosamente aquelas que também têm menos hábitos de internet, sobretudo pela idade média dos seus habitantes. A única distribuidora quer acabar com rotas que não são rentáveis. É somar o custo da mão-de-obra e dos combustíveis, entre outros, e perceber que vender quinze ou vinte jornais não compensa.

Suspeito que esses quinze ou vinte jornais – números meus, que sem qualquer fiabilidade serão meramente metafóricos – são jornais desportivos e eventualmente um ou outro Correio da Manhã.

Esta é uma péssima notícia, a vários níveis. O primeiro nível, mais sério, é o desaparecimento do interior, mesmo com a avalanche de imigração, tanto a rica quanto a pobre. São regiões da Europa que vivem como em África, com todo o respeito que tenho por África, mas a riqueza dos continentes não é comparável. Aliás, África tem desculpa. Na Europa não temos.

Vão-se os correios, o balcão do banco, o médico, há apenas uma pequena mercearia que fecha para almoço e já não haverá jornais. O convívio resume-se a homens a beber minis.

Também não se compram jornais há muito tempo porque, desde logo, não há dinheiro. Nestas regiões, um euro são muitos euros. Ainda que sobrasse para o jornal, não há interesse em lê-lo. Vale mais a raspadinha. Só os desportivos, lá está. O futebol ainda anima. Ou animava, porque mesmo esse, do ponto de vista da informação e opinião, já está chato e monocórdico. Sempre as mesmas conversas, sempre os mesmos temas e sempre a mesma análise.

Seja no interior, seja na cidade, compra-se um jornal para quê? Já falei disto aqui. Há muito tempo que não compro um jornal português em papel – mas compro, sim, jornais e revistas em papel. Não estou actualizado sobre o que se publica em Portugal, portanto. Mas não há valor. Não havia. Notícias às três pancadas e opinião em barda. Nada contra a opinião, é o que aqui estou a fazer neste momento. Mas, genericamente falando, a imprensa – jornais, rádios e televisões – recorreu à opinião de gente com agenda ou gente dos próprios partidos e depois só mais alguns que escrevem pro bono, porque isso lhes dá prestígio lá para as suas profissões, quase sempre na área jurídica.

É uma escolha. Foi uma estratégia. Mas ninguém tem interesse. Há cada vez menos conteúdos. Vendem-se livros, mas não se vendem jornais. Vêem-se reels, mas vê-se cada vez menos televisão. Interesse há, não há é interesse naquilo em que os media tradicionais se tornaram.

Quando aqui falei deste assunto, dei o exemplo do El Diario Vasco, que compro sempre que lá vou (San Sebastián). Também consumo online, mas eu gosto muito dos jornais em papel. Estou farto do computador e do telefone – permitam-me o desabafo. Farto. Adiante, isto era sobre o Diario Vasco. O mercado é mais pequeno que o português, no entanto vendem mais. Compra-se a edição de domingo e percebe-se. São noventa páginas cheias de informação, análise, opinião, interesse, humor, curiosidades, eu sei lá. Lê-se um jornal com gosto, com vontade e com pena de chegar ao fim. Volta-se atrás nas páginas.

Há muitos outros exemplos, o mais conhecido e cosmopolita é o Financial Times, na sua edição de fim-de-semana. Mas há muitos exemplos.

Por cá, com a oferta que temos, quem compra com vontade um jornal? Estão cada vez mais mirrados e mesmo assim são forrados a palha para encher. Reproduzem o que já se viu na televisão, no online ou até numa rede social. As crónicas, mais dia menos dia, já são feitas por inteligência artificial, porque aquilo é sempre mais ou menos a mesma coisa. Se derem à IA cinquenta crónicas de um cronista, daqui para a frente faz ela. Fica difícil. Eu sofro por não ter interesse em comprar um jornal português e sentar-me numa esplanada a lê-lo. Mas tentei, até que desisti.

E assim, se os jornais que restam já começam a não chegar ao interior, a notícia é ainda pior para o país. Mas, caramba, por todas as razões e nenhuma boa, era mais do que esperado. Não fomos surpreendidos.

Arrisco uma aposta, aliás. Vamos ser dos primeiros países a ficar sem imprensa e a viver do que se produz nas redes sociais, com todos os riscos que isso acarreta e não são poucos. São todos. Para piorar, não sei se ainda vamos a tempo de fazer alguma coisa para corrigir esta trajectória. Penso que não.

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