Ah, bolas, vamos ter de fazer mudanças no serviço

Só há uma coisa pior do que ser espancado fatalmente numas instalações do Estado. É depois disso o Governo anunciar uma reforma do serviço. Quando se é espancado num Estado que espanca, pronto, ainda é como o outro, não há grande coisa a fazer a não ser tentar combater esse regime, o que na maioria das situações só conduz a apanhar mais.

Mas ser espancado num Estado que não espanca e que até verifica, meses depois, que falhou ali qualquer coisa portanto é preciso fazer umas mudanças no serviço, isso é mesmo uma desgraça inominável.

Só lhes faltou ligar à viúva para renovar as condolências que tinham enviado pela embaixada, que por sua vez enviou através do cônsul – não tarda mandaram lá um estafeta da Glovo – mas agora também para agradecer, em nome do Estado português, ao defunto, por ter permitido detectar algumas falhas no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que até permitiram desenhar algumas mudanças já em Janeiro. E as mudanças são tão boas que nem se podem revelar já. Fique aí desse lado.

Há fatalidades bastante fúteis, como aqueles bêbados no café que se zangam depois de uma partida de futebol amigável e um deles acaba com a faca do presunto a ver-se no raio-x. Pois bem, esta, no aeroporto de Lisboa, parece ter sido mais uma fatalidade fútil. Deu origem a uma circular interna, a mudanças no serviço. Com sorte mudam o nome, porque eles gostam muito de mudar o nome. Lembremo-nos do Instituto de Meteorologia, que passou a ser Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Oxalá não tenha sido preciso arrumar com ninguém para reformar o serviço de meteorologia.

Se calhar foi e não soubemos, porque desta vez também foi por pouco que não passou. Não terem arranjado um ucraniano semelhante para aparecer na Chamusca foi uma sorte. No limite não teria existido espancamento. Eduardo Cabrita também podia ter tentado invocar que o Estado português não tinha assassinado um cidadão estrangeiro, porque tinha, isso sim, posto mais uma estrelinha no céu, ou seja, o programa espacial português não foi interrompido apesar da crise. Lá ia o Governo inaugurar a sala do aeroporto como centro de controlo de missões.

Ora bem, vamos lá ver uma coisa. Por estranho que pareça, ainda se vai a tempo de responder com dignidade a um crime desta natureza em território nacional e perpetrado por agentes do Estado. Demita-se o ministro e mais dois ou três. Uma já foi. Não faltam todos. Tenham sentido de Estado, compreendam as funções que desempenham. Que rolem as cabeças, mas que rolem como os queijos em The Cooper’s Hill Cheese Rolling and Wake.

Depois, que a justiça seja feita com eficiência e celeridade. Que se apurem os responsáveis e que se atribua uma justa indemnização à família. Mas ainda há mais. Visite-se a família lá onde estão – não têm de ser eles a vir cá – e conceda-se-lhes a cidadania portuguesa. A única forma de um país poder manter a cabeça erguida, depois disto, é começar por curvá-la.

E deixem as reformas do costume para depois. Há tempo. Ninguém faz boas reformas à pressa e sob pressão, muito menos quem já demonstrou considerável incompetência. Nestas alturas, a única reforma que um ministro deve anunciar é a sua.

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