Terça-feira, Setembro 27, 2022
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A propósito do Jubileu

Não consigo resistir a mais um daqueles temas que me arrasta inteiro e direitinho para os terrenos da desaprovação popular. Eu e o politicamente correcto não conseguimos ser amigos e não será seguramente por culpa dele, que até tem correcto escrito no nome. Mas vamos lá passar à acção, porque as pessoas têm com certeza coisas combinadas ou mesmo onde estar.

Vem isto a propósito do Jubileu de Platina da Rainha Isabel II. Depois dos epidemiologistas por causa da pandemia, vieram os generais dar conta da guerra. Nós já estamos todos mais ou menos formados em ambas. E como acontecia com os professores, temos os nossos favoritos. Eu tenho os meus e até gostava, em alguns casos, de os cruzar. Gostava de pôr o virologista Pedro Simas, por exemplo, a falar da guerra. Só porque tenho a certeza que já não havia guerra. “Não. Isto já não são bombas, é trovoada, a sério, vem chuva, que faz falta.” Tenho muito poucas dúvidas de que foi o optimismo de Simas que resolveu, na parte em que está resolvida, esta pandemia global.

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Mas adiante. Hoje dei com um especialista a falar sobre o Jubileu de Platina da Rainha. Não o conhecia. Em princípio não devia ser da área da Saúde, general também não fazia sentido, fui ver, era o director da revista VIP. Foi então que imaginei um qualquer acontecimento internacional que merecesse toda a nossa atenção, de forma prolongada, mas que não fosse do foro da saúde nem da geopolítica, fosse algo do foro cor-de-rosa. Uma espécie de vernissage global. Inesperada. Pelas televisões, a falar, sem interrupções, directores de revistas, organizadores de eventos, cabeleireiros, estilistas, penetras, colunistas sociais, tudo. E imaginei também, já sem precisar de imaginar mais nada mas por puro gozo, o Pedro Mourinho a relatar em directo da vernissage, dando nota da forma, cor e paladar dos acepipes que estavam a passar. Em estúdio, alguém, porventura um organizador de eventos, seria capaz de prever mais ou menos a duração do evento tendo em conta a qualidade dos acepipes servidos.

Enfim, penso que seria do agrado de todos continuarmos por este caminho, mas não foi isto que me trouxe aqui. Foi, imagine-se, a monarquia. É que, como seria de esperar, um evento como o Jubileu de Platina da Rainha de Inglaterra atiçou os republicanos. Pela minha parte, não sou uma coisa nem outra. Tendo sido convertido nos últimos tempos ao mais absoluto respeito pela natureza, comecei a ler mais sobre a selva e daí até me tornar defensor da lei do mais forte foi um ápice. Deixei então de ser republicano e sou hoje um selvagem. Mas com enorme respeito pela monarquia, algo que não encontro na maioria dos meus concidadãos, que se acham republicanos e evoluídos, por oposição aos monárquicos e anacrónicos.

A minha simpatia pela monarquia reside no facto de, não sendo um regime perfeito, até porque não há nenhum, também não é o pior. Isto no que diz respeito à mais alta figura do Estado, porque se estivéssemos a falar de um poder executivo, então era capaz de comer – lá está, nós na selva é assim – quem dissesse que tal poder podia ser atribuído sem ser por via de uma consulta popular. São dois casos completamente diferentes e neste particular falamos do Chefe de Estado, da mais alta figura de uma nação, que ainda é diferente, também, de ser uma grande figura no TikTok.

Repare-se. No sistema que vocês defendem, há um Presidente da República, eleito pelo povo. É verdade. É eleito pelo povo depois de ser escolhido pelos partidos. Experimentem lá concorrer à presidência da República. Era o candidatavam-se. Mais rapidamente acabam a tomar pastilhas para os nervos, depois de serem diagnosticados com um transtorno. Ora, esses candidatos escolhidos pelos partidos ficam a dever a eleição a quem? Como? Não estou a ouvir… A quem? Ah, exactamente. Aos partidos que neles apostaram. E a campanha, quem paga? Quem? Como? Têm de falar mais alto. Pois, eu sei que já houve candidatos que foram ao banco pedir 200 mil euros, mas também sei que não foram eleitos.

Entretanto, não me venham com o exemplo do actual Presidente da República, porque Marcelo é mais rei. Quem der como exemplo das vantagens republicanas o professor Marcelo, faz um psicotécnico e conclui que vai seguir monarquia com passagem pela escola de cavalaria e tudo. Isto num plano estético, claro, porque no plano político Marcelo é de todos os partidos e não é de nenhum. O que ainda pode ser pior.

No regime monárquico, a mais alta figura do Estado, o número 1, o garante de tudo e mais alguma coisa, não deve nada a ninguém. Nenhum empresário emprestou dinheiro para o baby shower do príncipe. Não foi preciso um partido aprovar o nome de sua majestade, que seria o tal partido que depois aparecia no palácio a pedir contas. É-se Rei ou Rainha porque não interessa, ninguém vai ousar perguntar-nos. Hoje parece mal, mas tempos houve em que o Rei ou a Rainha, se não gostasse da pergunta, podia mandar picar o súbdito e fazer um hambúrguer. Graças a séculos de evolução, hoje já nem sequer perguntam e evita-se uma situação desagradável para ambos. Hoje, quando uma pessoa vai estar na presença de um monarca, tem de decorar as falas como se fosse representar o Auto da Barca do Inferno. É um poder quase natural e por isso é verdadeiro.

Será que alguém, neste ponto, ainda considera assim tão desprezível o regime monárquico? Pior: Para além de considerar desprezível, até zomba dele? Vamos lá então ao golpe de misericórdia. Esta completa independência da Casa Real face ao poder, podendo concentrar-se apenas e exclusivamente na defesa da lei e do interesse público, pode trazer alguns frutos. No Índice de Percepção de Corrupção, que avalia 176 países, sabem quantos, no top 10, são monarquias? Eu vou dizer: 8. Oito dos dez países menos corruptos do mundo são monarquias constitucionais. Depois do top 10 há logo mais uma série delas. E já nem vou falar da classificação dos países da Commonwealth neste ranking, porque até podia parecer que me estava a fazer à Rainha.

O que me têm a dizer sobre estes números? Note-se que, para além da corrupção, estamos a falar de países livres e democráticos, com constituições bastante sólidas. É para se continuar a gozar com aqueles retrógrados ou talvez seja melhor ter alguma calma nesta hora? É que sim, parece-me estar tudo ligado. O poder corrompe-se mais facilmente quando está na dependência de muitos outros poderes mais ou menos obscuros. Nem é preciso sermos bandidos – apesar de ajudar – para acabarmos dentro da teia. Ora, se não existir nenhuma instância do poder – e ser a mais alta ajuda – que não dependa de rigorosamente mais nada a não ser de uma trancada, quem é que nos defende? A nós, povo? Ninguém.

Está quase a acabar. Ir embora agora era pena. Outro dos motivos para a impopularidade dos regimes monárquicos – fora das suas fronteiras, curiosamente – é a incompreensão face a tanta riqueza, a tantos palácios, àquela família que vive às custas do povo honesto e trabalhador. Com todo o respeito, eu vejo os palácios todos ocupados e agora nem é por um duque, é por um Instituto de Qualquer Coisa que Não Precisava de Ser um Instituto. Palácios, automóveis, motoristas, o luxo ainda está pior, porque suspeito que os pajens não pudessem levar o cavalo de serviço para as reuniões clandestinas onde tentavam planear um regicídio. Dir-me-ão que “foram eleitos”. É verdade, mas não se pode ser eleito e… acabar com as mordomias injustificáveis, como acontece, por exemplo, nas tais monarquias constitucionais que estão nos primeiros lugares dos países menos corruptos do mundo? Se calhar podia. Pois podia.

Outra das aversões à família real, que se soma aos luxos, prende-se com a origem do poder e resulta de uma compreensível inveja. Não ter pais reis pode parecer, à primeira vista, uma injustiça. A injustiça que é ter-lhes calhado a eles e não a nós todos. Bom, eu nunca fui soberano, mas posso garantir que é uma chatice tremenda. É terrível. Esqueçam. É um castigo. Não é sorte alguma. É ser funcionário público a vida toda, mas aquele funcionário público que não pode ir duas vezes ao café na mesma hora. Nem fumar. É o funcionário público número um. Não tem horários, mora no próprio serviço, com os colegas todos. Os colegas vão acordá-los à cama. A maioria das pessoas odeia os colegas, agora imagine-se darem com um deles a abrir as cortinas, logo pela manhã. É verdade que eles nunca chegam atrasados e se acordam mais tarde não têm de ir aos recursos humanos, mas porque dormem na repartição. Não é um palácio. Palácio têm as Kardashians ou lá o que é.

Enfim, tudo isto é lá entre vocês, republicanos e monárquicos, porque eu sou selvagem, mas pareceu-me útil deixar aqui esta reflexão.

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