[the_ad id=”10494″] Vamos lá ver uma coisa. De trabalhar ninguém gosta. Mesmo quem diz que gosta de trabalhar, gosta é do que faz, porque se saltasse dali para uma fábrica de roupa no Bangladesh deixava logo de ser workaholic. Mas passar os dias a espetar com etiquetas num vestido que a primeira coisa que as clientes fazem é arrancá-las, a troco de um dólar ao fim do mês, não deixa de ser trabalho. Só que é daqueles trabalhos que não vicia ninguém, claro.
Depois ainda há aqueles que dizem que gostam bastante de ir trabalhar, apesar de não apreciarem muito o seu ofício. Esses, no fundo, querem é pirar-se de casa. Na verdade não gostam de trabalhar, já não podem é ouvir a outra. Ou vice-versa.
Vem isto a propósito das declarações daquele senhor patrão, que diz e com razão que as pessoas não querem trabalhar e por isso as empresas têm muita dificuldade em contratar. A afirmação é verdadeira. As pessoas não querem trabalhar. Quem contestar isto é doido pelas razões já explicadas.
Acontece que, se o trabalho fosse agradável e bem remunerado, talvez as pessoas abrissem uma excepção. Porque ninguém se importa de trabalhar em locais com luz, bom ambiente, respeito pelas pausas, com bons resultados e com justiça e equilíbrio entre todos, para além de um salário suficientemente gordo para o trabalhador, depois de pagar as suas contas, ainda poder comprar um vestido feito no Bangladesh. O problema é quando não só se recebe mal, como ainda se tem de pagar para ir trabalhar para um incompetente que por sua vez responde a um subdirector que por sua vez responde a um director que por sua vez responde a um administrador que por sua vez responde aos accionistas e que se algum destes fizesse alguma coisa nem sequer precisavam de mim.
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Repare-se que Portugal tem muitos prémios e é hoje reconhecido por ter as melhores praias, os melhores hostels, as cidades mais cool, o melhor restaurante, a melhor fila de trânsito, o melhor buraco no passeio, a cerveja mais barata na melhor esplanada, o sunset mais brutal, a alvorada mais chilreante… mas nunca se viu ninguém a escolher isto para trabalhar. Vem agora a Google, mas traz com certeza as tendas. Vem acampar, não vem mesmo viver. Os aventureiros quando passam umas noites na selva também não começam a pôr os dedos no rabo nem a comer os próprios familiares.
Sem querer ferir o patriotismo de ninguém, apesar de todas as evoluções, Portugal não é um bom país para trabalhar, o que é um ponto negativo para os empregadores que já sofrem com a natural tendência do ser humano para não querer fazer nada. Basta ver-se que a maioria de estrangeiros que se mudam para Portugal são justamente reformados, ou seja, pessoas que não correm o risco de ter de trabalhar.
Há muitos chefes, muitas hierarquias, muita gente a mandar mas ninguém a comandar e pouca estratégia. Nas startups eles entendem-se porque são dois, três ou às vezes um. E mesmo assim nem sempre se entendem. Mas nas empresas maiores ainda há estruturas com um século e o resultado é uma equipa proactivamente deprimida que se arrasta infeliz até ao fim do mês. Os salários, esses, não convencem ninguém. São quase sempre baixos, porque quando são bons nem sequer é preciso pôr anúncio, encontrando-se logo alguém disponível.
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Há superiores hierárquicos a ganhar cinco vezes mais do que o desgraçado ao seu dispor e ainda têm carro e telemóvel, que foi um esquema que se encontrou para aumentar ordenados nos quadros intermédios e altos sem passar pelo IRS. Mas os pobres diabos da primeira linha não receberam carro nem telefone. Talvez um cabaz no Natal, mas isso sempre receberam.
Para mudar isto era preciso mudar a mentalidade dos patrões – sobretudo dos patrões que se queixam das pessoas que não querem trabalhar sem lhes oferecerem o seu próprio lugar, para constatarem que o problema não está na preguiça. Mas também era preciso mudar a mentalidade do país. Com a protecção que existe ao trabalhador, que vai para além da que está na própria lei, nenhum empregador arrisca muito e oferece-se sempre por baixo, porque se a coisa não resultar fica-se agarrado para sempre ao mono, isto se o tribunal não acabar por despedir o patrão.
É uma questão de Justiça, que deve proteger em primeiro lugar os trabalhadores, mas tem também o dever de proteger as empresas. E nem é preciso mexer na lei, basta o magistrado aplicá-la sem se armar em benemérito com a generosidade alheia.
Mas uma coisa é certa: ninguém quer trabalhar. Só há uns que gostam do que fazem, outros que querem mandar e ainda outros que só não querem ir para casa.
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