Terça-feira, Fevereiro 7, 2023
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Madonna e o garanhão

Madonna, popular cantora alfacinha, foi impedida de gravar um videoclip num palacete em Sintra, tudo porque queria entrar com um cavalo. A Câmara de Sintra, invocando a engenharia civil e o bem-estar do palacete, meteu aqueles drogados todos a andar dali para fora.

Onde é que se já se viu, agora querem entrar com um cavalo no palacete. Vão mas é dormir que amanhã isso passa, depois o nosso Conan Osíris é que não bate bem. O palacete, queriam escangalhar o palacete…

É claro que a Câmara de Sintra, na pessoa do seu presidente – que deu a cara pelo caso – só não deixou o cavalo entrar por ser um cavalo, algo que devia levantar questões ao nível do politicamente correcto. Na minha opinião, já lá vai o tempo em que os cavalos ficavam à porta, amarrados a argolas.

A única questão ao nível do politicamente correcto que, neste caso, não poderá ser levantada é de género, uma vez que uma cavala teria conseguido entrar, desde logo porque podia ir num bolso.

Depois do coice, Madonna terá dito – ou pelo menos diz-se que disse – que agora é que se vai embora de vez deste país. Madonna é mesmo muito excêntrica. De todas as boas razões para desistir de Portugal, é a primeira vez que alguém invoca não ter conseguido entrar com um cavalo num palacete. É completamente inédito. Já houve pessoas que se queixaram da falta de emprego, outras da falta de oportunidades, também da falta de estacionamento – mas nesse particular, Madonna conseguiu meter os carros num palacete – sabe-se inclusivamente de pessoas que deixaram Portugal por causa do clima, porque aqui o frio é demasiado frio e o calor é muito abafado, mas nunca ninguém se tinha queixado de não conseguir entrar com um animal de grande porte num imóvel protegido.

Chegados aqui, temos de reconhecer que a grande culpada por toda esta lamentável situação é a cantora. Não tinha nada de perguntar se podia entrar com o bicho. Entrava e pronto, já lá estava dentro. Uma vez no interior do palacete, os funcionários, percebendo que era Madonna, iam a correr buscar água para o bicho. E também para a bicha, porque o champanhe às tantas dá secura. Se houvesse algum problema, nomeadamente se aparecesse a Polícia Municipal, então Madonna só tinha de dizer que estava a trabalhar.

O “estou a trabalhar”, em Portugal, é uma espécie de imunidade, de livre trânsito, salvo conduto. Em Portugal só não se pode infringir regras por lazer. A trabalhar tudo bem. Mesmo uma assassino apanhado a assassinar em flagrante, se conseguir provar que o seu CAE é de assassino a soldo, estou certo que se pode ir embora. O homem estava a trabalhar.

Madonna já reside em Portugal há tempo suficiente para saber como é que isto funciona. Ter pedido autorização para transformar a Quinta Nova da Assunção numa cavalariça foi um erro. Transformava e depois, no máximo, pagava uma coima. Mas era preciso que alguém notasse e há uma pessoa que seguramente não ia notar: Basílio Horta. Penso que é possível entrar numa reunião com o presidente da câmara de Sintra, no seu próprio gabinete, com um cavalo, e ele não repara. São pessoas muito ocupadas, reparam lá num cavalo numa sala.

No entanto, se a grande responsabilidade é de Madonna, deve também dizer-se que Basílio jamais devia ter impedido tal actuação equestre e não é por ter sido Madonna a pedir, porque eu, apesar de ser fã da Madonna, esta nova versão alfacinha não é a sua melhor fase. Era como Vasco Santana ir acabar a carreira em Nova Iorque, também não ia ser bonito.

O autarca de Sintra devia deixar qualquer cavalo entrar nos seus palacetes porque foi para isso que se fez o 25 de Abril, mas sobretudo porque foi para isso que se inventou a caução. Se Madonna quer filmar com o animal, muito bem, são X de caução pela Madonna – que também estraga muita coisa – e mais Y pelo garanhão. Desde que o bicho não provocasse o big bang, tudo o resto tem conserto.

Isto dá portanto ares de ter sido Basílio a querer ser apenas chato para o cavalo, num gesto que politicamente lhe pode ter corrido bem, pois pessoas que não podem levar ninguém lá a casa porque os estores partiram-se nos anos 90 e ainda continuam na diagonal, conseguem estar mais preocupadas com a Quinta Nova da Assunção. Mas mesmo essas pessoas, não sei se estão assim tão preocupadas com o património municipal ou se também não é mais para chatear o cavalo.

Entretanto, uma palavrinha para os termos da resposta que foi dada pelo autarca à rainha pop. Basílio disse que há coisas que o dinheiro não paga. Um pouco exagerado para o caso. Não sabemos se foi um problema de tradução, mas era num palacete que Madonna queria meter o cavalo. Num palacete. É absolutamente verdade que há coisas que o dinheiro não paga, mas essas coisas costumam ser imateriais, tipo dignidade, honra, etc.. Um soalho, se não for uma metáfora, se for mesmo apenas chão, é perfeitamente pagável com dinheiro. Não há aliás outra forma de pagar um soalho, que não seja com dinheiro.

Por fim e tudo analisado, se parece por um lado que Basílio Horta só queria chatear o cavalo, também parece, por outro, que Madonna só queria encontrar um motivo para se ir embora de Portugal. Isto porque, se não quisesse correr riscos, tinha pedido um palacete à câmara de Lisboa, onde não só podia meter um cavalo como toda a Arca de Noé. Não é? É.

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